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RAPIDINHAS DA OE
 

Rap 23 -  21/6/2006

Ditador – Helena - Cicatriz

1- Phla – 9,3

2- inquieta – 9,0

 

De onde viemos

 

O que foi na sua testa, minha filha tinha quatro anos quando perguntou. Não entenderia, nem sequer acreditaria, se eu dissesse que não sou exatamente quem ela pensa. Como reagiria se eu contasse de onde vim, de Pedhus e de como as crianças são feitas? É por onde você saiu, filha, cuspida por uma dobra do meu cérebro. Basta pensar e pronto: surge uma idéia, que cresce, se desenvolve, e ao cabo de nove meses nasce um ser feito de imaginação pura.Você, por exemplo, e suas irmãs. Não, é muito cedo para saber de todos esses detalhes. Com seis ou sete anos, talvez.

- Bati com a cabeça numa quina.

Phlavyus

**

A marca

 

Ele começou delicado, quase um beijo, ela entregou-se ao desejo da boca faminta que lhe lambia a pele. Sentiu o escorregar da língua lhe eriçando os pêlos, a umidade da saliva a transformando em  rio. Os seios se derreteram. Carícias escorriam lentas, sussurravam apelos, palavras chulas, lhe abriam as pernas. Gemeu baixinho, inchada e arfante, liquefeita toda, despudorada e puta.

Ele lhe molhava as coxas, lhe bebia a vida e deslizava a boca

 

No desvario do êxtase ela sentiu a dor e  num grito louco percebeu a marca. Vergou o corpo e lhe acariciou os cabelos. A pele queimava lacerada, a alma ardia. E a cada gemido mais ele cravava os dentes.

E ela o afagava...

inquieta



Escrito por inquieta às 23h59
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Rap 22 -  14/6/2006

Ditador – Phla – O estrangeiro

1- inquieta – 9,4

2- Helena – 8,7

 

 

O sonho de Maria

 

Maria sonhava. Um xeique árabe, olhos negros, cavalgando ao vento num corcel branco. Porque Maria não queria pouco. Que a levasse na garupa para o estrangeiro. Viveria no deserto, entre beijos de fogo, tâmaras e cetins, recostada, lânguida, à sombra dos minaretes.
O primeiro ela recusou, era louro. O segundo tinha olhos azuis, também não serviu. O terceiro não sabia cavalgar, o quarto era alérgico à areia. E um a um eles desfilaram, mas ela virava o rosto.

O tempo passou e Maria não viu.

 

Anos depois casou-se com o turco da quitanda. Foram felizes para sempre.

 

inquieta

 

**

 

Longe desse insensato mundo.

 

O soldado armou a tenda e esperou. Devia levar a mensagem, mas não sabia para onde.
Também desconhecia quem a enviara. Sua única certeza era de que havia uma mensagem
e sua missão era entregá-la naquela madrugada..

Ao longe o sol se punha vermelho. Pássaros cantavam. .

O soldado se encostou na baioneta e esperou.

Estrelas explodiam anunciando a madrugada. Ele sabia que era importante, a mais importante de sua jovem existência.

Poeira se formou na noite clara. O batalhão inimigo!

 

Com o peito dilacerado, o soldado soube enfim a quem se destinava a mensagem.

 

Helena

 



Escrito por inquieta às 23h59
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Rap 21 -  7/6/2006

Ditador – Rubens – “Quantos cães, Senhor, quanta escuridão.

1- Phla – 9,2

2- Helena – 9,0

 

Objeto direto: dor


Ver, verbo transitivo direto. Eu vejo; o quê? Hoje não houve objeto, oculto pela escuridão absoluta. Ver, conjugado negativo e intransitivo. Não vejo. Ouço, porém, melhor que jamais ouvi, como se cada cone e bastonete, agora inúteis, cada célula do corpo, fosse sensível às vibrações do ar. Ouço com pés e mãos, com joelhos e cotovelos, com ânus e pulmões. Ouço cães, e eles latem. Verbo intransitivo colorido de advérbios. Polifonicamente. Em uníssono. Cada vez mais próximos. De um modo tão apavorante que ouço quando o esfíncter relaxa e um líquido quente escorre pelas pernas.

Prevendo os dentes rasgando a pele, imagino o que cada célula capaz de ouvir também pode sentir.

 

Phlavyus

 

**

 

O penúltimo tiro

Cães me seguem. E cavalos.
Muitos, enormes, crinas de fogo, dentes puídos.
Cães de bocarra, sem pelo.  Carecas de vida e morte.
Não os vejo porque apagaram a luz da Terra.
Estamos mergulhados na escuridão eterna.
De alguma forma sou, pensamento pulsando no negrume.
Só eu, os cães. E os cavalos.
Única companhia que restou na noite eterna.
Maltrapilhos, famintos.
Matarei os cavalos.
E os cães
Com o penúltimo tiro.

 

Helena



Escrito por inquieta às 23h58
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Rap 20 -  1/6/2006

Ditador – inquieta – Do outro lado do rio

1- Phla – 9,4

2- Marcelo – 9,2

 

Espelho d’água

 

As ondas quebravam em seus pés quando ele olhou para o outro lado do rio.  Pouco enxergava, distante dali era a margem oposta; mas quando acenou,  percebeu que um rapaz lhe acenava de volta, um perdido, talvez, naquela  lonjura. Pensativo, olhou para baixo, e o rio lhe devolveu sua imagem  refletida; olhou à esquerda, à direita, e encontrou a canoa. Precisava  buscá-lo, o rapaz do outro lado, sentiu, e tinha às mãos o necessário.  Meteu-se na embarcação e remou, e remou. E depois de tanto remar, já pensando se jamais chegaria do outro lado, viu de perto o tal perdido. E ele tinha os mesmos olhos, e acenava com a mesma mão, que antes vira no espelho d'água.

 

Phlavyus

 

**

 

Contrabando

 

A água que salta dos remos respinga na canoa, molhando as bombachas  puídas. Do outro lado do rio, as luzes portenhas refletem nas retinas do  Uruguai anseios de estrelas. Fazer o quê? O matadouro fechou suas portas, jogando na terra vermelha das ruas uma procissão de desempregados. Restou o chibo - contrabando de açúcar e farinha do lado argentino como forma de  botar comida na boca dos rebentos. A canoa pesa, prenha de mercadorias. E no entanto o tiro certeiro da polícia de fronteira acaba com o sonho. O corpo que afunda nas águas barrentas do Uruguai vira peixe, seixo, concha. No rancho de paredes caiadas, três crianças choram de fome.

 

Marcelo



Escrito por inquieta às 23h58
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Rap 19 -  20/5/2006

Ditador – Tânia - Urucubaca

1- Day – 8,5

2- Marcelo – 8,0

 

Um dia de cão.

 

Acordou com o pé esquerdo. Sem querer. Levantou e foi ao banheiro coçando a barriga. No meio do corredor pisou no cocô de gato. Aquele F.D.P. do gato preto da vizinha!
Depois do café, colocou o terno branco. Novo. Tinha uma reunião importante. No caminho para o escritório, choveu a cântaros! O terno ficou enlameado. Trânsito. Chegou atrasado na reunião. Perdeu o cliente. Saiu puto! Tropeçou na escada que estava no meio da calçada. Tentou não cair, mas escorregou numa casca de banana. Caiu de bunda no chão. No meio da rua. Foi atropelado pelo ônibus que tinha acabado de ser assaltado. Era um cara bacana....

 

Day

 

**

 

Sincretismo

 

Ajoelhou-se em frente ao Cristo e pediu perdão. Não sabia bem por quê - pai de família, trabalhador, sem vícios. Mas aprendera ainda em criança que, quando as coisas andam mal, a culpa é dos pecados da gente.

A figura talhada em madeira, dependurada na cruz, abriu os olhos devagar:

- Isso é oio gordo, mizifio. Urucubaca da braba. Faiz um trabáio com galinha preta, farofa e pinga na encruziada. Dispois um banho de discarrêgo.

Pela primeira vez na vida acreditou em milagres.

 

Marcelo



Escrito por inquieta às 23h58
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Rap 18 -  13/5/2006

Ditador – Marcelo – Deixai as esperanças, vós que entrais.

1- Tânia – 8,6

2- inquieta – 8,4

 

Passa, passara...

 

Uma baita fila...

Me espicho todo, mas não consigo ver. Só escuto: "Você passa. Você fica"

O que é que eu tô fazendo aqui? Quem, diabos, está falando?

E não é que atiro no que vejo e acerto no que não enxergo? Era o  demo, mesmo.

Quem ouve o fica, ta livre do capeta, mas, cruz de pau, cruz de ferro, quem passar "vai pro inferno".

Nunca tremi tanto. (  pera aí, morto treme?).

Na minha vez, o chifrudo bafeja: larga a esperança

De jeito nenhum.

Ele puxa dum lado, eu do outro.

Menino, solta as cobertas.

O demo com a voz da mamãe?

Tânia

**

A viúva

   Dorival passou a vida amealhando. Economiza daqui, guarda dali, nada de vestido novo, viagem pra que?

Mariluce desesperava. A vida indo pro ralo, poupança engordando e eles naquela penúria.

Quando o marido caiu doente, ela agradeceu a Deus.

Meses de agonia, vai não vai. Foi enfermeira exemplar, fez o que pode. No fim deu uma ajudazinha pro destino, afinal ele não resolvia desencarnar. Se não ia por bem acabou indo por mal. Mas foi.

Agora só o enterro. Tirou o vestido escuro da caixa. Grife famosa, lhe caía bem. Na bolsa a passagem para as Bahamas.

Acompanhou o féretro nos trinques.

Viu a inscrição: "Deixai as esperanças, vós que entrais". Sorriu embaixo do véu negro. Bem feito.

inquieta



Escrito por inquieta às 23h57
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Rap 17 -  6/5/2006

Ditador – Marcelino- - As partes foram removidas

1- Udo – 9,2

2- Rubens – 8,7

 

Prelúdio e fuga sobre pós-modernidade


Prelúdio:
Probabilidade. Oportunidade. Eis a obscuridade. Onde está a certeza? E o desejo, fogo? Querer. Gostar. Amar. Acontecer? A certeza! O colorido virou preto & branco e nas fotos momentos, segredos em mim. Mas não existe mais do que consciência objetiva.  Passado. Todas as visões, todos os espíritos e as probabilidades têm forma. Que as deixe ser, como se houvessem sido removidas as partes deum inteiro constantemente. Desligue-se do objetivo e penetre na crítica para o mais humano, meu ser!


Fuga:
Tema Desenvolvimento Compassos intercalados Ecos de calor abafado sonhos fritando Minha mente rodopia Significante riacho Meus braços são curtos demais para segurar o rio-mar sonoro que corre com todas as cores todas as dores todos os amores todos... célere o contraponto aponta ao plano físico além do plano físico além do plano físico Significado.

 

Udo

**

 

Lepra

Unhas. Dedos. Mãos. Braços. Cotovelos. Antebraços. Ombros.

Unhas. Dedos. Pés. Calcanhares. Tornozelos. Pernas. Joelhos. Coxas.

Nádegas. Anus. Sexo. Barriga. Costas. Peito. Mamilos. Axilas. Pescoço.Orelhas.

Queixo. Nariz. Olhos. Sobrancelhas. Boca. Maçãs do rosto. Nuca. Testa. Couro

Cabeludo. Cabelo. Crânio.

Pensamento.

 

Rubens



Escrito por inquieta às 23h57
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Rap 16 -  27/4/2006

Ditador – Helena - Detalhes

1- Rubens – 9,7

2- Day – 9,2

 

 

Ela
  Cama, colchão e travesseiro incolores. Fotos do Rodrigo Santoro nas paredes. A gente se encontra ainda. Um quadro antigo: Sagrado Coração de Jesus, presente da mãe. Algumas roupas novas, doadas pela nova patroa. Maquiagem comprada naquele 1,99 ótimo lá do centro. Três cds do Teodoro e Sampaio, os melhores, os melhores. Uma sandália com a tira arrebentada. Só usei duas vezes, perdi meus dez reais. Calcinhas, meias, camisetas, dois vestidos, uma mini-saia. Eles gostam. Sábado a noite, se põe bonita e sai. Escolhe entre a bolsa preta com fecho estragado, e a branca rasgada no lado. Acessórios são detalhes muito importantes na apresentação de uma mulher. Ouvi isso na televisão. Nunca mais esqueci.

Rubens

 

**

Chove
           A cortina bate na janela produzindo um som duro, transparente. O vento rodamoinha folhas secas. Abro a porta, piso na grama úmida, escuto pink floyd. Gotas grossas, azuis, escorregam pelas minhas coxas feito lágrimas. E eu nem sei porque choro. Mas o gosto é salgado da dor que é feita nos detalhes do dia.

 Meu vestido cola nos seios. Sinto frio enquanto as flores parecem dançar. Descubro uma fila de formigas fugindo dos pingos, todas de guarda-chuva de folhas. Um trovão estoura ao longe. É dia de São Jorge. Salve, Jorge!

Day



Escrito por inquieta às 23h56
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Rap 15 -  20/4/2006

Ditador – Leila - Galinha

1- Eros – 9,5

2- Marcelo – 9,1

 

Nova marca

Naquela espécie de janela, toda a cena parecia emoldurada numa natureza morta com o detalhe da mais nova realidade.

No começo eram quase imperceptíveis.

Porque eram alegres e as alegrias são recebidas com festas e muitos sorrisos, mas já estavam se emaranhando, brigando e quase se bicando.

Duas, quatro, seis, oito... – sorriu contando – se fosse de pares em pares logo teria uma granja.

Tocou levemente o espelho próximo ao olho esquerdo percebendo a nova marca, \  um pé-de-galinha nítido no terreiro do tempo de sua pele.

 

Eros

 

**

Matemática ( baseado em fatos reais)

Oito meses sem emprego, três dias sem comer. O vazio devorando as entranhas. A fome nas lágrimas dos cinco rostos inocentes. Desespero.

No terreiro do vizinho, dezenas de galinhas. Escolheu umazinha só, a mais minguada.
Deu quatro anos e meio de cadeia.
Em casa, o doutorjuiz sorri satisfeito com sua justiça, degustando um doze anos escocês de cinqüenta e sete dólares. 

 

Marcelo



Escrito por inquieta às 23h56
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Rap 14 -  13/4/2006

Ditador – Phla – Paisagem na praia

1- Leila – 9,0

2- Eros – 9,0

 

 

Espera
  Do vasto mundo só a praia eu via. E a paisagem composta de barquinhos preguiçosos num balanço hipnótico. Assim pensei em Eva e Lilith e não escolhi nada porque nada existia de verdade. Só a paisagem. Nem maçãs, nem cobras ou demônios. Tudo em mim era sábia espera. Uma calma nipônica e aprendida. Ele, Ulisses ou Adão,surgiria sobre as águas dominadas. Isso, um dia. Então, só me interessava a espera e a paisagem.

 

Leila

**

A Pintura

Praia deserta de um devaneio nunca há poluição. Assim comparava Guaxuma, suas ondas lambiam os montes de areia que se formavam à beira, cedendo logo aos gracejos embriagados do mar.

O resultado desse enamoramento foi a mulher que apareceu sob as ondas no partido casulo de areia. A nova Vênus, a personificação do amor temperado pelo mar e tingido pelo sol em toda sua forma e beleza brotava da areia de uma praia deserta.

Era uma paisagem linda.

Corri na direção, para devotar meu amor.

Ela estava tão nua, tão cheia de... Marcas, furos, sangue...

E como última pincelada o despertar, um siri, de sapiência, arrancou-lhe canibalmente um pedaço de seu dedo e voltou para o mar.

 

Eros



Escrito por inquieta às 23h55
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Rap 13 -  5/4/2006

Ditador – Rubens – O esquecimento é um poço desesperado

1- Phla – 9,4

2- Leila – 9,4

 

Quem é você?

Mamãe, sou eu, Maria Inês! Não se lembra de mim? Mamãe, onde você encontrou essa arma? Abaixa isso, que alguém pode se machucar! Solta, mamãe, que alguém pode pensar que a senhora está ficando maluca de apontar um revólver para sua filha. Não, eu não estou invadindo seu quarto, não quero roubar suas jóias, muito menos o marido. Eu vou contar até três...

As mãos trêmulas baixaram a arma. Mas Dona Beatriz tornou a levantá-la, apontou para sua própria cabeça e não hesitou. Maria Inês tentou evitar, mas o movimento foi muito rápido.

Bam.

    

O esquecimento se tornara um poço desesperado.

Phlavyus

**

Memória

Vago pela cidade. A noite tem todas as cores e todos os sons. Quem disse que os gatos eram pardos? Não são. Há pouco Rubens me disse, entre baforadas daquele charuto fedorento: Leila, o esquecimento é um poço desesperado. Assim, do nada, coisa de bar. Retruquei: Errado, a memória é que é um poço desesperado, queria eu ter uma pílula para o esquecimento, tivesse uma eu não precisaria vagar assim, noite após noite. Eu esqueceria aquela chuva batendo forte no telhado e eu tão pequena e só escondida debaixo da mesa, esqueceria meu pai chorando. Então homem chorava? Esqueceria que papai noel nunca existiu. Esqueceria uma infância e dormiria.

 

Leila


Escrito por inquieta às 23h54
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Rap 12 -  29/3/2006

Ditador – Tânia – O espaço

1- Phla – 9,3

2- Marcelino – 9,1

 

Tudo ocupado


No closet não tinha mais espaço, no armário da cozinha também não, e tampouco no quarto de empregada. Olhou o baú com as roupas dos meninos: cheio. Sob a pia do banheiro não cabia um só suspiro. O sótão, o porão, tão repletos quanto o estômago depois da feijoada. Lembrou-se do cofre, resgatou a senha dos abismos da memória, e o descobriu igualmente ocupado.

As crianças se multiplicavam atrás de cada porta. Sem ter onde enfiar o corpo do marido, Joana deu o último tiro em sua própria cabeça.

Agora nem no meio da sala tem espaço.

 

Phla

 

**

 

Fechado para Moagem


Questão de espaço, meu anjo! Minha pichizinha não agüenta esse pilão negro e duro que você está me apontando. E quer saber? Vá tratando de se vestir, que o monjolo vai parar a moagem por... Antes de acabar a frase, o corpo numanchou a parede. O agressor olhou as mãos ensangüentadas.

Tudo nele era grande.

 

Marcelino

Escrito por inquieta às 00h33
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Rap 11 -  16/3/2006

Ditador – inquieta - Silêncio

1- Marcelo – 9,2

2- Marcelino – 8,7

 

Cotidiano
  
       Não vou demorar, amor (a gravata ficou bem?), é só uma reunião da firma. Depois, um drinque com o chefe. Volto antes da meia-noite.

Ah! já ia esquecendo. Encontrei o Ricardo hoje à tarde. Aquele, lembra? com quem você me traiu no ano passado. Engordou, ele. Arreganhou os dentes amarelados e perguntou por você.
      Ó: os dentes estão aí nessa caixinha de fósforos ao lado do abajur, amarelos. São seus, faça o que quiser com eles.

Um beijo, querida. Volto antes da meia-noite.

(sobre a cama, o cadáver esfaqueado permanece em silêncio)

 

Marcelo

 

**

 

Adorno Silencio



Disseram-me, a lavra da solidão é indolor, deveria ser solitário este meu exílio liquado, não deveria doer, mas o silêncio ainda não se compadeceu, talvez pela sensação de esmagamento no tórax, minha única companhia, não, as mãos latejam, a pressão no globo ocular também veio me ungir, tudo deveria estar quieto, entretanto o zumbido, entretanto gritos entretém-me.

Havia um barco lá em cima, antes de saber-me humano-artesiano, neste momento o silêncio não poderia doer, mas ainda dói, o oceano faz a sua parte, constrange, os tímpanos explodem, o silêncio já não dói tanto, então, os pés amarrados desistiram da verticalidade, o fundo do barco sumiu, meu abdome se rompeu, só agora, escuro, o silêncio não dói, é adorno.

Marcelino



Escrito por inquieta às 00h33
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Rap 10 -  15/3/2006

Ditador – Marcelino - Volte para o lugar de onde você veio.

1- Day – 9,7

2- Marcelo – 9,5

 

Lar

 

Eu tentei novamente.

Fiz o maior esforço. Meu pai ficou exultante.

Almocei com a família aos domingos, fui com meus irmãos (os chatos) fazer inúmeras visitas.

Mas aquele cheiro de sândalo me enjoava, a música suave permitida pelo velho déspota me enojava. Palavras sussurradas, ordens murmuradas, me deixaram louco.

Cadê a cerveja, o pagode, o funk com as cachorras se rebolando doidinhas pra dar?

Cacete!

Mandei meu pai à merda de novo. Coloquei a mochila nos ombros e deixei o lar, não sem antes sentir um aperto no coração ao ver as lágrimas do velho ao me dizer as ultimas palavras: "Lúcifer, meu filho amado. Aqui é o seu lar e estarei te esperando de braços abertos.

Velho sacana.

 

Day

 

**

 

Malebolgia

  

 Fez tudo conforme a avó ensinara: o pentagrama desenhado no chão, as velas de sete dias e os cânticos numa linguagem desconhecida. E, de uma nuvem de fumaça negra, o demônio apareceu. A camisa regata justíssima no abdome globoso; as suíças quase se unindo ao bigode tingido de preto; o medalhão de lata simulando ouro caindo sobre o peito cabeludo, tilintando em assonância com as pulseiras baratas.

E agora ele está lá, sentado na poltrona da sala, com os olhos vermelhos fixos no futebol, sua cerveja e seus gases abdominais, e ela não consegue achar no livro a forma de mandá-lo de volta pro inferno de onde veio.

Marcelo



Escrito por inquieta às 00h32
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Rap 9 -  9/03/2006

Ditador – Segredo

1- Helena – 8,8

2- Marcelino – 8,7

 

Estações

 

Uma Ondina nasceu neste tanque e ninguém acredita.

Sol lavou todo pátio, minha tia decreta: é abril. Quase sempre, parece.

Dezembro esticado, janeiro perdido em janelas.

Fevereiro roubei suas flores, ninguém viu. Sou assim, meio março, ou  abril.

A Ondina me disse umas coisas, mas você não me olha.

Nunca diz o que pensa.

Nem os peixes, a roda, o cavalo do tempo. O seu corpo é de pedra e nem

Sei se me vê, com a boca de água, sobre as folhas, a sombra. Sua boca que

Jorra o murmúrio de sempre.

Faz mal não, vivo assim neste abril.

Olho o tempo que passa.

Tudo  mais é segredo.

 

Helena



Escrito por inquieta às 00h31
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O Tapete de Enoch 

Entenda, mulher.

Durante tantos anos imaginei o segredo perdido. Fui ao templo, orei, busquei a resposta até nas equações do sistema solar.

Estava onde menos imaginei.

Aqui, sob a etiqueta, escrita pelo próprio Enoch. Leia e diga se não tive razão para fazer o que fiz.

Não havia outra saída.

Este é o único lugar possível para se manter a energia do tapete

Entenda, sem a luz do sol, as qualidades mágicas não se sustentam.

Não me convinha o sentimento mórbido?

Por acaso deveria eu assistir inerte a destruição de tudo que nos resta?

Eram culpados, sim. Construíram as torres.

Hoje vamos voar, querida.

Em alguns minutos a luz do nascente cingirá o tapete de Enoch.

 

Marcelino



Escrito por inquieta às 00h31
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Rap 8 -  10/2/2006

Ditador – Leila - comida

1- Marcelino – 9,8

2- Helena – 9,5

 

Profissão de Fé

Ao nascer do dia, Maria terá oito pássaros enterrados sob a cama do menino. Mesmo sem melhoras, ela mantém a esperança de ver o filho subir o monte das oliveiras.

De pé, ante a gaiola, ela recita sua profissão de fé: creio em ti, ave bendita. Toma a doença desse menino. Bica essa maldição e enxota para o inferno esse mal com o teu respirar. Abandona o teu viver benigno e põe as miraculosas meias, prometidas pelo anjo, nas perninhas de meu filho.

Amém.

Dito isso, despeja as sobras da comida do filho na gaiola.

Enquanto a mãe acende o círio e Jesus arrasta as pernas atrofiadas até o fogão a lenha, o pássaro estrila moribundo.

 

Marcelino



Escrito por inquieta às 00h30
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 Rondò

Embrulho apertado no peito, ela calculava menus.

Com um ovo só: farofa, gemada, suspiro?

Sol forte, suor, frutos apodrecidos.

Baque

Aliança na mão, ele xingava: cadela, me fazer de corno,  piranha!... casa em

Angra , lancha particular, casamento marcado.

Sufocava, procurou o remédio no bolso

Baque

Embrulho passeou no ar, se espatifou  no chão quente

- Desculpe, senhora, foi minha culpa, compre outros ovos

- Mas é muito dinheiro!

- Leve isto também. Presente meu.

Entregou a aliança. Saiu livre.

Ela delirava: pasteis, carne assada, camarão

Baque

Cano frio na nuca

- Passa o anel

- Mas de jeito nenhum!

Baque

Tiros, gritos, omelete escorrendo entre o sol violento de verão.

 Helena



Escrito por inquieta às 00h29
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Rap 7 -  21/2/2006

Ditador – Helena - Sorte

1- Marcelelino – 9,1

2- Tânia – 9,1

 

Sendeiro Nutriz

Depois de abandonar a quermesse, os pelicanos e gralhas brancas do carrossel, ainda condenavam o sendeiro por alguns metros. Desse mais duas voltas não ouviria do peito saliente, o baque estrepitoso das fumegantes porções de acalanto. Avaliou a sorte de não ter sucumbido aos cheiros das tortas de nozes, à contração da barraca do beijo.
Durante a marcha pelo canavial, sentiu-se paraninfo da terra; as folhas arriadas viçavam às suas costas.

Ao entrar na choça, ouviu o choro lastimoso da fome. Usando as duas mãos, afastou a quarta e a quinta costela. A criança, cheirando a incenso de sua antiga pele, beiços inchados, puxou um tanto de seu coração e se pôs a sugar.

 

Marcelino

 ** 

Gira, roda, gira 

Blaise, apavorado, percebeu que as Parcas não o atendiam. Sequer o escutavam.. Já havia tentado de tudo. Oferecera mil presentes,fizera chantagens, ameaçando-as com o retorno de Áries, mas de  nada adiantou.

As três mulheres seguiam girando a Roda, sem parar, tecendo e tecendo o fio da sua vida. A roda girava tão lentamente e essa desgraceira toda não iria acabar tão cedo.
Deu de mão num machado que estava ao lado da máquina  e, num único golpe, decepou-lhes as cabeças. Caíram, aos seus pés, com aquela aparência lúgubre, horrorosa, que sempre tiveram.

Respirou aliviado. Bastava girar a roda, rapidamente para posicionar-me no topo e sair do fundo.

Três corpos, decapitados, teciam, teciam, teciam...

 

Tania



Escrito por inquieta às 00h27
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Rap 6 -  17/2/2006

Ditador – Phla –Tema: Telefonema inesperado

1- Rubens – 9,4

2- Leila – 9,4

 

 

É mesmo?
  
Pois não, sim, quem fala? Pastor Miguel? Olha, não tenho interesse, importante pra mim? Tá, o que é? Se começar o sermão eu desligo. Tá, tá, deixa eu ver se entendi direito: meu filho, que eu ainda vou ter, será o anti-cristo, o senhor teve uma visão, um aviso de Deus, que te deu meu número? É isso mesmo? Senhor pastor Miguel, só uma coisinha básica eu sou um travesti 100% operada, meu amor. Acho que o Deus aí da visão se esqueceu de avisar o senhor deste pequeno detalhe anatômico.

 
            Rubens

 

**

 

Tessitura
  

  “Sete anos de pastor Jacó servia Labão...”
  
  Interrompi a leitura e decidi que aquele Jacó era mesmo um jacu. Vai ser besta assim nos quintos dos infernos. Foi eu pensar na palavra besta e o telefone tocou. Era ele, depois de tanto tempo. Sete anos, talvez. Minhas pernas tremeram. Ainda tremiam. Afinal de contas não tinha só Jacó de besta neste mundo, ainda pensei antes de soltar um ‘olá’ bem fraquinho. E, como se sete anos significassem sete dias, ele perguntou: Como tem passado? Bem, agora estou bem. Eu disse sem rancor e sentei-me para escutar Ulisses. Ulisses que um dia pegou sua escova de dentes, uma toalha e foi descobrir o mundo. 
Na parede, meu tapete pela metade.

 

Leila

Escrito por inquieta às 00h26
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Rap 5 -  10/2/2006

Ditador – Marta –Tema: Você terá que chefiar a expedição de captura

1- Marcelo – 9,4

2- Rita – 9,0

 

Herói de guerra

Quando o Capitão morreu, o Comandante disse que eu teria que chefiar a expedição de captura. Não me sentia em condições, mas fazer o quê? Ordens são ordens.

O marciano tinha o tamanho de um urso, olhos enormes e uma baba que escorria de uma boca repleta de tentáculos que repetia "ulla, ulla, ulla". Sua pele era oleosa e se alimentava de sangue humano. Depois de ver meus comandados caírem, um a um, como frutas secas, senti o tentáculo na garganta e o sangue deixando meu corpo. Agora era só questão de tempo. Três minutos e o marciano tombou, sem vida.

A medalha até que ficou bem no peito carcomido pelo vírus.   

Marcelo  

**
      Você no espelho

Das memórias  de João Mariz Fernandez: "Destacado  para o regimento da colônia lunar. Faz dez anos agora.

Ainda lamento. Às vezes,  choro.Temendo à  execução por desobediência, aceitei chefiar aquela expedição de captura a José  Cordonella. O Conselho Mundial rotulava-o de 'criminoso político.

Mas eu o conhecia como ninguém: a melhor  pessoa que já vi.  Foram as idéias radicais  obscenas ("liberdade de expressão", "democracia"...) que o arruinaram.

José resistiu  à prisão. Atirei nele. O Comando rosnou - pois ansiava fuzilá-lo em público - mas,  no fim, ficou contente com aquela morte. Eu não.

A memória  dele ainda me assombra. Talvez, eu seja um fraco, afinal, por que um homem  seria tão apegado a seu clone?" 

Rita



Escrito por inquieta às 15h59
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Rap 4 -  1/2/2006

Ditador – Rubens –Tema: Eu tô aqui

1- inquieta – 8,8

2- Marcelino – 8,4

 

 

Sina

  

  Foi tudo tão rápido; bem que ela avisava o marido, o dia vai chegar... 

  E chegou. A bala foi certeira. Dorival nem gemeu.

  Martírio engoliu o choro, secou os olhos, abaixou-se e depositou a última rosa na terra fofa. A solidão lhe arrepiou a pele. Sina de nome, sina de vida.

  Engasgou um soluço. E agora?

  Foi quando sentiu o puxão na saia:

  - Eu tô aqui, mãe.

Era Dozinho. Deram-se as mãos  e voltaram para o barraco.

 

inquieta

 

**

 

  A Moça da Mesa Oito

  

  Ao enxugar-se, observou seu corpo refletido no espelho. Gostou do que viu: tudo no lugar; sem gorduras adicionais e cheirando a pétalas de rosas. Esta noite será perfeita.

  Ao entregar as chaves para o manobrista notou seu olhar anguloso. O maitre conduziu-a pelo amplo salão, repleto de mesas com feitiços castiçais. Duas louras bebericavam num canto penumbroso, no outro extremo um casal masculino jantava, ambos descalços. Os pés roçando a perna cabeluda.

  A moça da mesa oito levantou-se ao avistá-la. Ao escolhê-la, pela foto no site de acompanhantes, parecia bonita, mas era lindíssima.

  Eis-me, - disse antes do beijo afoito - gostou?

 

Marcelino



Escrito por inquieta às 12h21
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Rap 3 -  26/1/2006

Ditador – Inquieta –Tema: Êxtase

1- Marselo – Helena - 9,4

2- Marcelo – 9,1

 

Pai Filho Espírito Santo

Senhor, o senhor é três e vai entender a minha situação. É a história de uma idéia fixa: sair do corpo. Passei vinte anos morando no meu. Primeiro, tentei com o sexo. Entrei, aos dezessete, no de uma mulher e lá depositei indícios do meu. Nove meses depois saí de dentro dela. Não
gostei dessa solução. Aos dezoito, Isaac já tinha um. Afoguei-o nabanheira, ordens Vossas.
Senti-me vingado: o *filho da puta da minha mãe* ficou dois anos sofrendo naquela cela. Mas cansei de me divertir com o seu sofrimento e rasguei as próprias entranhas, desesperado para ver se sairia algo de lá.

Fico feliz e surpreso de encontrar o Senhor aqui. E agora?

Marselo

 

**

Alumbramento
 Irmã Madalena tem a pela lisa e olhos febris. Adoração exaltada, corpo que se contorce em noites insones.Irmã Madalena espera o Messias em carne.

O Vento Norte trouxe Padre Inácio no verão ardente. Recém saído do seminário, boca pecadora.
Irmã Madalena aprende rápido.No escuro do catre, ela delira:

- Eu vi os céus... eu vi os céus... Sem saber que plagia Bandeira.

Helena

**

Livre negociação

O combinado: dez o strip, vinte o boquete e trinta o papai-mamãe.Mais ela não fazia.

Dezesseis anos. Dezessete em março.

O velho não chegou a abrir a carteira. Bem que o médico tinha dito: o coração podia não agüentar emoções mais fortes.

Marcelo



Escrito por inquieta às 12h12
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Rap 2 -  20/1/2006

Ditador – Tânia –Tema: Fulminante

Leila

Helena

 

 

  Edna

  
Loira, mas loira de cabelo pixaim, só crescia para os lados. De nada adiantava essa cor herdada da mãe. Feia. Era o que o espelho lhe mostrava. E os olhares desinteressados que só passavam sobre os

seus ombros?

Além. Sempre além.  

Não sabia o que a incomodava mais, os que mentiam para 'consolá-la' ou os que escancaravam o desprezo, como a Cláudia que já passa pela porta da secretaria com os dentes arreganhados, distribuindo bom dia. Cabelos pretos, lisos, cheia de grana. Do marido, claro. O trabalho na escola era só para constar. Mulher moderna. Vinte diários para colocar em dia, apostava que o da Cláudia estava cheio de erros.

 - Chamem uma ambulância, Edna teve um ataque.

 

Leila

 

**

Fulminante

 

Eu tranquei as portas, fechei as janelas, esqueci o telefone. Fiz cercas no coração,  joguei fora a chave, assassinei o carteiro, rezei uma novena e acendi vela de sete dias. Desconectei a Internet, passei cola nas cartas, coloquei venda nos olhos e algodão nos ouvidos. Pra esquecer o teu nome, maldizer  tua boca. Comprei uma venda preta, me cobri de luto, eu fugi praBangu e me aprisionei
Mas de nada valeu.

- Alfredo?

 

Helena

Escrito por inquieta às 21h28
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Rap 1 -  13/1/2006

Ditador - Marcelino–Tema: Abordagem

1 -  Leila– m 8.66

2 -  Rubens– m  8,58

 

 

              Manhã

  Parou no sinal e viu, ao lado, a mulher. Não olhava para nada. Esperava  que o primeiro carro se movesse e aí se moveria também, abandonaria aquele  estado. Tudo ao redor inexistia, naquele segundo conhecia tanto dela. Inalou  o ar numa tentativa idiota de alcançar seu cheiro. Como? Tantos vidros  separando os dois e a poluição, as vidas, aqueles moleques sujos sacudindo  desespero em cambalhotas ou gestos de estudada humildade.  E em casa Teresa  servia o café sempre com as mesmas palavras, parecia um disco de auto-ajuda.  Uma baboseira sobre ser feliz, cega para o mundo. Cega, surda e feliz, mas  não muda. Num segundo, como se tivesse sentido, a mulher se virou e o sinal  mudou de cor.

Leila

 

**

 

  A última abordagem

  Pedaço escuro de rua. Eu olhei para o poste e vi a lâmpada quebrada. Ia  passar ligeiro, meio perigoso aquilo lá. No meio do pedaço escuro, a mão abordou meu peito, oi gostoso, chegou o teu dia, estarreci, vem cá vem, não foge da inevitável, quis correr, dizer comigo não violão, de repente a outra mão por trás, vem cá vem, não foge que é pior, puxou minha camisa, arrebentou os botões, fiz menção de pegá-los no chão, não sei por quê.

Ajoelha aí e reza amoreco, tens trinta segundos pra convencer Deus a te salvar. A julgar pelo calor, não fui muito convincente.

Rubens



Escrito por inquieta às 21h17
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Rap 43 -  2/12/2005

Ditador – Marcelo –Tema: Ho ho ho.

1 -  Mairy– m 8,5

2 -  Leila– m  8,3

 

Espírito de natal 

Desde criança, a risada do Papai Noel me assusta. No dia do Natal, há trinta anos atrás, quando minha família estava reunida, um homem entrou pela porta vestido de Papai Noel e os fuzilou. Todos. Escapei porque me escondi dentro da máquina de lavar. É só ouvir o maldito HoHoHo para sentir um arrepio gelado e vontade de vomitar. Neste ano terei de comemorar o Natal, minha filha insistiu tanto que terminaram meus argumentos contra. Comprei uma ceia daquelas vendidas congeladas, um pinheiro e alguns presentes para ela, além do cd com músicas típicas dessa época. Ah, comprei , também, uma calibre 12 caso o desgraçado do Papai Noel ouse entrar pela nossa chaminé!

Mairy

 

**

 

O bife


  Natal é sempre a mesma merda. Teve um natal que prestou, foi quando abocanhei aquele bife do pai. Antes, isso era regalia dele, para nós, só a gordura que sobrava e mamãe misturava numas batatinhas.
 Ainda lembro dele se preparando para comer e do homem na porta. Disparou os tiros sem dizer bom dia, o pai mal teve tempo de se assustar. Eu só tinha uma idéia na cabeça, o bife. Comi num piscar de olhos. Ainda vi mamãe sair pelo portão e caminhar, sem olhar para trás. Nunca mais
voltou.

 

Leila



Escrito por inquieta às 21h06
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Rap 42 -  15/12/2005

Ditador - Helena–Tema: Escolha errada.

1 -  Marcelo– m 9,0

2 -  Leila– m  8,6

 

 

A escolha  

Meu pai costumava dizer que a vida é feita de escolhas, filho.

Lembrei disso olhando a foto do homem que fui contratado para matar. Ali estão os mesmos olhos assustados que agora se voltam pra mim. Os dois pares de olhos. O filho-da-puta que me contratou só não disse que eram gêmeos. Finalmente entendo o que meu velho queria dizer.

 

Marcelo

 

**

 

  Profano 

  Sofia estranhava aquela consistência. Meteu os dedos na massa e levou-os à boca só para constatar que o gosto também fugia ao comum. O comum era não ter gosto. Entretanto seguira à risca os ensinamentos da mãe.

  Padre Rafael apareceu na porta no momento em que ela lambia os dedos. De bermudão. Sofia enrubesceu. 'Algo errado?' Perguntou ele se aproximando. Sem esperar resposta, tomou a mão da moça, enfiou-a de novo na massa, lambeu cada um dos seus dedinhos e sentiu o estremecimento do seu corpo. 'Não se preocupe, filha, estas hóstias ainda não estavam consagradas.

 

Leila



Escrito por inquieta às 21h05
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Rap 41 -  2/12/2005

Ditador - Phlavyus–Tema: Maldita dor de dentes.

1 -  Marcelino– m 9,5

2 -  Leila– m  9,4

 

 

Um Tiro

Um sereno delirava o rosto branco. O Bispo caminhava cedo, em horários irregulares. Antes das cinco, Jair incorporava o mendigo à frente da mitra. Quem dorme com essa dor? Sentia mastigarem sua língua, goela, até a orelha esquerda estava carcomida pela dor.

Nunca matei nesse estado. Só preciso de um tiro.

Preciso de remédio, senão fico louco.

A primeira encomenda, e logo o Bispo, um homem perigoso?

No portão, ele socava as cáries da tortura.

Por que chora, pobre homem? Ouviu enquanto arrancava fiapos da japona. As mãos do clérigo no ombro.

Não chore, Deus há de perdoar os teus pecados.

Me salve do inferno, Dom Carmelo.

A bala entrou queixo acima. Explodiu a cárie amaldiçoada.

 

Marcelino

 

**

Dores

Imprime o rosto contra o travesseiro, sente a fronha já molhada. Tinha chorado tanto. Até bendizia aquela dor de dente. Desviava da outra dor, a verdadeira.

Ergue a cabeça e estuda, no varal, pedaços dele, ali umas mãos fortes, do outro lado os pés e logo o tronco seguro, mesmo sem a cabeça. As mãos ainda respingavam. Nem sabia como tinha tido a idéia de desmembrá-lo assim, um instinto.

 

Leila

Imagem - Maitland



Escrito por inquieta às 15h58
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Rap 40 -  23/11/2005

Ditador - Marta–Tema: Oito minutos embaixo d’água.

1 -  Tania– m 9,7

2 -  Helena – m  9,6

 

 

Últimos instantes neste mar

Que ondas são essas, tão estranhas? Empurram-me e, quando vou, algo me impede.Obriga-me a voltar. Sufoco. O som da tua voz não traz alento. Diverso de sempre, entrecortado por soluços, geme. Sinto medo.

Serei eu a provocar-te tanta dor? "Oito minutos..."

O que procuras, assim, tão apressada?

"Sete... seis... Deus, ajude!" Meu corpo bêbado, não coordena... Cheiro forte!Entonteço.

"Cinco... quatro... três minutos. Tudo ou nada".

Um brilho fere meus olhos.De onde veio? Alguém me puxa, com força e um rio vermelho cerca nossos corpos nus.

"Dois... um". Desfaleces junto a mim.

Choro.

A faca, ao lado de meu pequeno corpo reflete tua coragem de mulher e mãe.

Com teu amor, trouxeste-me à luz.

Tania

**

Oito minutos lá embaixo

A cabeça molhada apareceu na orla do mar espalhando água

- Viu, mãe? anotou o tempo?

- Humhum.... legal - respondeu, olhos lassos para o namorado

- Vou de novo. Conta aí!...

- Pode deixar - mentiu, boca de promessas em direção ao vento

- Ele não está demorando muito? - preocupou-se o rapaz, consultando o relógio.

- Nada... é sempre assim...

A Mãe olho para as unhas com desgosto " esmalte vagabundo... descascando na ponta"

No fundo do mar, o menino passeia entre as algas flutuantes, rodopia com peixes coloridos.

As guelras estão quase prontas.

Helena

Imagem – Chagall detalhe



Escrito por inquieta às 15h56
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Rap 39 -  16/11/2005

Ditador - Rubens–Tema: Ali, do outro lado.

1 -  Marcelo– m 9,3

2 -  Helena – m  9,2

 

 

    Cavalaria

      Ali, do outro lado do terreno, diviso as armaduras negras do exército inimigo. Avançamos, lanças em riste. Num movimento coordenado, eles também marcham em nossa direção.  Então, o combate tem início. Desvio de um golpe de espada, mas meu companheiro ao lado não tem a mesma sorte. Consigo vingá-lo numa estocada de lança. Ofegante, vejo um poderoso cavalo negro pisotear nosso sacerdote, que encomendava as almas aos céus. Pobre bispo. Um arqueiro, do alto de uma torre, faz justiça ao religioso, flechando o animal nas ancas. É quando a vejo. A rainha inimiga. Porém, na ânsia de preservá-la, os estrategistas fragilizaram seu soberano. Protegido pelo arqueiro, me aproximo e capturo o rei negro. Fim de jogo.

      Xeque-mate.

 

Marcelo

 

**

 

Telegrama

            Rosto fechado tarde que morria pt ao seu lado também eu

morria vg olhando o sol pt. palavra trancada cadeado amargo pt. sua mão na

cerca vg morena  e uma brisa isto eu sabia pt não via seus olhos pt

Para que int. Poços de negrume sem repostas pt No estômago borboletas vg

pedra no coração pt O sol sumiu e estrelas caíram pt Telegrafei uma

última palavra pt

           Mas você estava longe.

 

Helena



Escrito por inquieta às 15h49
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