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Rap 23 - 21/6/2006
Ditador – Helena - Cicatriz
1- Phla – 9,3
2- inquieta – 9,0
De onde viemos
O que foi na sua testa, minha filha tinha quatro anos quando perguntou. Não entenderia, nem sequer acreditaria, se eu dissesse que não sou exatamente quem ela pensa. Como reagiria se eu contasse de onde vim, de Pedhus e de como as crianças são feitas? É por onde você saiu, filha, cuspida por uma dobra do meu cérebro. Basta pensar e pronto: surge uma idéia, que cresce, se desenvolve, e ao cabo de nove meses nasce um ser feito de imaginação pura.Você, por exemplo, e suas irmãs. Não, é muito cedo para saber de todos esses detalhes. Com seis ou sete anos, talvez.
- Bati com a cabeça numa quina.
Phlavyus
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A marca
Ele começou delicado, quase um beijo, ela entregou-se ao desejo da boca faminta que lhe lambia a pele. Sentiu o escorregar da língua lhe eriçando os pêlos, a umidade da saliva a transformando em rio. Os seios se derreteram. Carícias escorriam lentas, sussurravam apelos, palavras chulas, lhe abriam as pernas. Gemeu baixinho, inchada e arfante, liquefeita toda, despudorada e puta.
Ele lhe molhava as coxas, lhe bebia a vida e deslizava a boca
No desvario do êxtase ela sentiu a dor e num grito louco percebeu a marca. Vergou o corpo e lhe acariciou os cabelos. A pele queimava lacerada, a alma ardia. E a cada gemido mais ele cravava os dentes.
E ela o afagava...
inquieta
Escrito por inquieta às 23h59
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Rap 22 - 14/6/2006
Ditador – Phla – O estrangeiro
1- inquieta – 9,4
2- Helena – 8,7
O sonho de Maria
Maria sonhava. Um xeique árabe, olhos negros, cavalgando ao vento num corcel branco. Porque Maria não queria pouco. Que a levasse na garupa para o estrangeiro. Viveria no deserto, entre beijos de fogo, tâmaras e cetins, recostada, lânguida, à sombra dos minaretes. O primeiro ela recusou, era louro. O segundo tinha olhos azuis, também não serviu. O terceiro não sabia cavalgar, o quarto era alérgico à areia. E um a um eles desfilaram, mas ela virava o rosto.
O tempo passou e Maria não viu.
Anos depois casou-se com o turco da quitanda. Foram felizes para sempre.
inquieta
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Longe desse insensato mundo.
O soldado armou a tenda e esperou. Devia levar a mensagem, mas não sabia para onde. Também desconhecia quem a enviara. Sua única certeza era de que havia uma mensagem e sua missão era entregá-la naquela madrugada..
Ao longe o sol se punha vermelho. Pássaros cantavam. .
O soldado se encostou na baioneta e esperou.
Estrelas explodiam anunciando a madrugada. Ele sabia que era importante, a mais importante de sua jovem existência.
Poeira se formou na noite clara. O batalhão inimigo!
Com o peito dilacerado, o soldado soube enfim a quem se destinava a mensagem.
Helena
Escrito por inquieta às 23h59
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Rap 21 - 7/6/2006
Ditador – Rubens – “Quantos cães, Senhor, quanta escuridão.
1- Phla – 9,2
2- Helena – 9,0
Objeto direto: dor
Ver, verbo transitivo direto. Eu vejo; o quê? Hoje não houve objeto, oculto pela escuridão absoluta. Ver, conjugado negativo e intransitivo. Não vejo. Ouço, porém, melhor que jamais ouvi, como se cada cone e bastonete, agora inúteis, cada célula do corpo, fosse sensível às vibrações do ar. Ouço com pés e mãos, com joelhos e cotovelos, com ânus e pulmões. Ouço cães, e eles latem. Verbo intransitivo colorido de advérbios. Polifonicamente. Em uníssono. Cada vez mais próximos. De um modo tão apavorante que ouço quando o esfíncter relaxa e um líquido quente escorre pelas pernas.
Prevendo os dentes rasgando a pele, imagino o que cada célula capaz de ouvir também pode sentir.
Phlavyus
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O penúltimo tiro
Cães me seguem. E cavalos. Muitos, enormes, crinas de fogo, dentes puídos. Cães de bocarra, sem pelo. Carecas de vida e morte. Não os vejo porque apagaram a luz da Terra. Estamos mergulhados na escuridão eterna. De alguma forma sou, pensamento pulsando no negrume. Só eu, os cães. E os cavalos. Única companhia que restou na noite eterna. Maltrapilhos, famintos. Matarei os cavalos. E os cães Com o penúltimo tiro.
Helena
Escrito por inquieta às 23h58
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Rap 20 - 1/6/2006
Ditador – inquieta – Do outro lado do rio
1- Phla – 9,4
2- Marcelo – 9,2
Espelho d’água
As ondas quebravam em seus pés quando ele olhou para o outro lado do rio. Pouco enxergava, distante dali era a margem oposta; mas quando acenou, percebeu que um rapaz lhe acenava de volta, um perdido, talvez, naquela lonjura. Pensativo, olhou para baixo, e o rio lhe devolveu sua imagem refletida; olhou à esquerda, à direita, e encontrou a canoa. Precisava buscá-lo, o rapaz do outro lado, sentiu, e tinha às mãos o necessário. Meteu-se na embarcação e remou, e remou. E depois de tanto remar, já pensando se jamais chegaria do outro lado, viu de perto o tal perdido. E ele tinha os mesmos olhos, e acenava com a mesma mão, que antes vira no espelho d'água.
Phlavyus
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Contrabando
A água que salta dos remos respinga na canoa, molhando as bombachas puídas. Do outro lado do rio, as luzes portenhas refletem nas retinas do Uruguai anseios de estrelas. Fazer o quê? O matadouro fechou suas portas, jogando na terra vermelha das ruas uma procissão de desempregados. Restou o chibo - contrabando de açúcar e farinha do lado argentino como forma de botar comida na boca dos rebentos. A canoa pesa, prenha de mercadorias. E no entanto o tiro certeiro da polícia de fronteira acaba com o sonho. O corpo que afunda nas águas barrentas do Uruguai vira peixe, seixo, concha. No rancho de paredes caiadas, três crianças choram de fome.
Marcelo
Escrito por inquieta às 23h58
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Rap 19 - 20/5/2006
Ditador – Tânia - Urucubaca
1- Day – 8,5
2- Marcelo – 8,0
Um dia de cão.
Acordou com o pé esquerdo. Sem querer. Levantou e foi ao banheiro coçando a barriga. No meio do corredor pisou no cocô de gato. Aquele F.D.P. do gato preto da vizinha! Depois do café, colocou o terno branco. Novo. Tinha uma reunião importante. No caminho para o escritório, choveu a cântaros! O terno ficou enlameado. Trânsito. Chegou atrasado na reunião. Perdeu o cliente. Saiu puto! Tropeçou na escada que estava no meio da calçada. Tentou não cair, mas escorregou numa casca de banana. Caiu de bunda no chão. No meio da rua. Foi atropelado pelo ônibus que tinha acabado de ser assaltado. Era um cara bacana....
Day
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Sincretismo
Ajoelhou-se em frente ao Cristo e pediu perdão. Não sabia bem por quê - pai de família, trabalhador, sem vícios. Mas aprendera ainda em criança que, quando as coisas andam mal, a culpa é dos pecados da gente.
A figura talhada em madeira, dependurada na cruz, abriu os olhos devagar:
- Isso é oio gordo, mizifio. Urucubaca da braba. Faiz um trabáio com galinha preta, farofa e pinga na encruziada. Dispois um banho de discarrêgo.
Pela primeira vez na vida acreditou em milagres.
Marcelo
Escrito por inquieta às 23h58
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Rap 18 - 13/5/2006
Ditador – Marcelo – Deixai as esperanças, vós que entrais.
1- Tânia – 8,6
2- inquieta – 8,4
Passa, passara...
Uma baita fila...
Me espicho todo, mas não consigo ver. Só escuto: "Você passa. Você fica"
O que é que eu tô fazendo aqui? Quem, diabos, está falando?
E não é que atiro no que vejo e acerto no que não enxergo? Era o demo, mesmo.
Quem ouve o fica, ta livre do capeta, mas, cruz de pau, cruz de ferro, quem passar "vai pro inferno".
Nunca tremi tanto. ( pera aí, morto treme?).
Na minha vez, o chifrudo bafeja: larga a esperança
De jeito nenhum.
Ele puxa dum lado, eu do outro.
Menino, solta as cobertas.
O demo com a voz da mamãe?
Tânia
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A viúva
Dorival passou a vida amealhando. Economiza daqui, guarda dali, nada de vestido novo, viagem pra que?
Mariluce desesperava. A vida indo pro ralo, poupança engordando e eles naquela penúria.
Quando o marido caiu doente, ela agradeceu a Deus.
Meses de agonia, vai não vai. Foi enfermeira exemplar, fez o que pode. No fim deu uma ajudazinha pro destino, afinal ele não resolvia desencarnar. Se não ia por bem acabou indo por mal. Mas foi.
Agora só o enterro. Tirou o vestido escuro da caixa. Grife famosa, lhe caía bem. Na bolsa a passagem para as Bahamas.
Acompanhou o féretro nos trinques.
Viu a inscrição: "Deixai as esperanças, vós que entrais". Sorriu embaixo do véu negro. Bem feito.
inquieta
Escrito por inquieta às 23h57
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Rap 17 - 6/5/2006
Ditador – Marcelino- - As partes foram removidas
1- Udo – 9,2
2- Rubens – 8,7
Prelúdio e fuga sobre pós-modernidade
Prelúdio: Probabilidade. Oportunidade. Eis a obscuridade. Onde está a certeza? E o desejo, fogo? Querer. Gostar. Amar. Acontecer? A certeza! O colorido virou preto & branco e nas fotos momentos, segredos em mim. Mas não existe mais do que consciência objetiva. Passado. Todas as visões, todos os espíritos e as probabilidades têm forma. Que as deixe ser, como se houvessem sido removidas as partes deum inteiro constantemente. Desligue-se do objetivo e penetre na crítica para o mais humano, meu ser!
Fuga: Tema Desenvolvimento Compassos intercalados Ecos de calor abafado sonhos fritando Minha mente rodopia Significante riacho Meus braços são curtos demais para segurar o rio-mar sonoro que corre com todas as cores todas as dores todos os amores todos... célere o contraponto aponta ao plano físico além do plano físico além do plano físico Significado.
Udo
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Lepra
Unhas. Dedos. Mãos. Braços. Cotovelos. Antebraços. Ombros.
Unhas. Dedos. Pés. Calcanhares. Tornozelos. Pernas. Joelhos. Coxas.
Nádegas. Anus. Sexo. Barriga. Costas. Peito. Mamilos. Axilas. Pescoço.Orelhas.
Queixo. Nariz. Olhos. Sobrancelhas. Boca. Maçãs do rosto. Nuca. Testa. Couro
Cabeludo. Cabelo. Crânio.
Pensamento.
Rubens
Escrito por inquieta às 23h57
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Rap 16 - 27/4/2006
Ditador – Helena - Detalhes
1- Rubens – 9,7
2- Day – 9,2
Ela Cama, colchão e travesseiro incolores. Fotos do Rodrigo Santoro nas paredes. A gente se encontra ainda. Um quadro antigo: Sagrado Coração de Jesus, presente da mãe. Algumas roupas novas, doadas pela nova patroa. Maquiagem comprada naquele 1,99 ótimo lá do centro. Três cds do Teodoro e Sampaio, os melhores, os melhores. Uma sandália com a tira arrebentada. Só usei duas vezes, perdi meus dez reais. Calcinhas, meias, camisetas, dois vestidos, uma mini-saia. Eles gostam. Sábado a noite, se põe bonita e sai. Escolhe entre a bolsa preta com fecho estragado, e a branca rasgada no lado. Acessórios são detalhes muito importantes na apresentação de uma mulher. Ouvi isso na televisão. Nunca mais esqueci.
Rubens
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Chove A cortina bate na janela produzindo um som duro, transparente. O vento rodamoinha folhas secas. Abro a porta, piso na grama úmida, escuto pink floyd. Gotas grossas, azuis, escorregam pelas minhas coxas feito lágrimas. E eu nem sei porque choro. Mas o gosto é salgado da dor que é feita nos detalhes do dia.
Meu vestido cola nos seios. Sinto frio enquanto as flores parecem dançar. Descubro uma fila de formigas fugindo dos pingos, todas de guarda-chuva de folhas. Um trovão estoura ao longe. É dia de São Jorge. Salve, Jorge!
Day
Escrito por inquieta às 23h56
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Rap 15 - 20/4/2006
Ditador – Leila - Galinha
1- Eros – 9,5
2- Marcelo – 9,1
Nova marca
Naquela espécie de janela, toda a cena parecia emoldurada numa natureza morta com o detalhe da mais nova realidade.
No começo eram quase imperceptíveis.
Porque eram alegres e as alegrias são recebidas com festas e muitos sorrisos, mas já estavam se emaranhando, brigando e quase se bicando.
Duas, quatro, seis, oito... – sorriu contando – se fosse de pares em pares logo teria uma granja.
Tocou levemente o espelho próximo ao olho esquerdo percebendo a nova marca, \ um pé-de-galinha nítido no terreiro do tempo de sua pele.
Eros
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Matemática ( baseado em fatos reais)
Oito meses sem emprego, três dias sem comer. O vazio devorando as entranhas. A fome nas lágrimas dos cinco rostos inocentes. Desespero.
No terreiro do vizinho, dezenas de galinhas. Escolheu umazinha só, a mais minguada. Deu quatro anos e meio de cadeia. Em casa, o doutorjuiz sorri satisfeito com sua justiça, degustando um doze anos escocês de cinqüenta e sete dólares.
Marcelo
Escrito por inquieta às 23h56
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Rap 14 - 13/4/2006
Ditador – Phla – Paisagem na praia
1- Leila – 9,0
2- Eros – 9,0
Espera Do vasto mundo só a praia eu via. E a paisagem composta de barquinhos preguiçosos num balanço hipnótico. Assim pensei em Eva e Lilith e não escolhi nada porque nada existia de verdade. Só a paisagem. Nem maçãs, nem cobras ou demônios. Tudo em mim era sábia espera. Uma calma nipônica e aprendida. Ele, Ulisses ou Adão,surgiria sobre as águas dominadas. Isso, um dia. Então, só me interessava a espera e a paisagem.
Leila
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A Pintura
Praia deserta de um devaneio nunca há poluição. Assim comparava Guaxuma, suas ondas lambiam os montes de areia que se formavam à beira, cedendo logo aos gracejos embriagados do mar.
O resultado desse enamoramento foi a mulher que apareceu sob as ondas no partido casulo de areia. A nova Vênus, a personificação do amor temperado pelo mar e tingido pelo sol em toda sua forma e beleza brotava da areia de uma praia deserta.
Era uma paisagem linda.
Corri na direção, para devotar meu amor.
Ela estava tão nua, tão cheia de... Marcas, furos, sangue...
E como última pincelada o despertar, um siri, de sapiência, arrancou-lhe canibalmente um pedaço de seu dedo e voltou para o mar.
Eros
Escrito por inquieta às 23h55
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Rap 13 - 5/4/2006
Ditador – Rubens – O esquecimento é um poço desesperado
1- Phla – 9,4
2- Leila – 9,4
Quem é você?
Mamãe, sou eu, Maria Inês! Não se lembra de mim? Mamãe, onde você encontrou essa arma? Abaixa isso, que alguém pode se machucar! Solta, mamãe, que alguém pode pensar que a senhora está ficando maluca de apontar um revólver para sua filha. Não, eu não estou invadindo seu quarto, não quero roubar suas jóias, muito menos o marido. Eu vou contar até três...
As mãos trêmulas baixaram a arma. Mas Dona Beatriz tornou a levantá-la, apontou para sua própria cabeça e não hesitou. Maria Inês tentou evitar, mas o movimento foi muito rápido.
Bam.
O esquecimento se tornara um poço desesperado.
Phlavyus
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Memória
Vago pela cidade. A noite tem todas as cores e todos os sons. Quem disse que os gatos eram pardos? Não são. Há pouco Rubens me disse, entre baforadas daquele charuto fedorento: Leila, o esquecimento é um poço desesperado. Assim, do nada, coisa de bar. Retruquei: Errado, a memória é que é um poço desesperado, queria eu ter uma pílula para o esquecimento, tivesse uma eu não precisaria vagar assim, noite após noite. Eu esqueceria aquela chuva batendo forte no telhado e eu tão pequena e só escondida debaixo da mesa, esqueceria meu pai chorando. Então homem chorava? Esqueceria que papai noel nunca existiu. Esqueceria uma infância e dormiria.
Leila
Escrito por inquieta às 23h54
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Rap 12 - 29/3/2006
Ditador – Tânia – O espaço
1- Phla – 9,3
2- Marcelino – 9,1
Tudo ocupado
No closet não tinha mais espaço, no armário da cozinha também não, e tampouco no quarto de empregada. Olhou o baú com as roupas dos meninos: cheio. Sob a pia do banheiro não cabia um só suspiro. O sótão, o porão, tão repletos quanto o estômago depois da feijoada. Lembrou-se do cofre, resgatou a senha dos abismos da memória, e o descobriu igualmente ocupado.
As crianças se multiplicavam atrás de cada porta. Sem ter onde enfiar o corpo do marido, Joana deu o último tiro em sua própria cabeça.
Agora nem no meio da sala tem espaço.
Phla
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Fechado para Moagem
Questão de espaço, meu anjo! Minha pichizinha não agüenta esse pilão negro e duro que você está me apontando. E quer saber? Vá tratando de se vestir, que o monjolo vai parar a moagem por... Antes de acabar a frase, o corpo numanchou a parede. O agressor olhou as mãos ensangüentadas.
Tudo nele era grande.
Marcelino
Escrito por inquieta às 00h33
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Rap 11 - 16/3/2006
Ditador – inquieta - Silêncio
1- Marcelo – 9,2
2- Marcelino – 8,7
Cotidiano Não vou demorar, amor (a gravata ficou bem?), é só uma reunião da firma. Depois, um drinque com o chefe. Volto antes da meia-noite.
Ah! já ia esquecendo. Encontrei o Ricardo hoje à tarde. Aquele, lembra? com quem você me traiu no ano passado. Engordou, ele. Arreganhou os dentes amarelados e perguntou por você. Ó: os dentes estão aí nessa caixinha de fósforos ao lado do abajur, amarelos. São seus, faça o que quiser com eles.
Um beijo, querida. Volto antes da meia-noite.
(sobre a cama, o cadáver esfaqueado permanece em silêncio)
Marcelo
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Adorno Silencio
Disseram-me, a lavra da solidão é indolor, deveria ser solitário este meu exílio liquado, não deveria doer, mas o silêncio ainda não se compadeceu, talvez pela sensação de esmagamento no tórax, minha única companhia, não, as mãos latejam, a pressão no globo ocular também veio me ungir, tudo deveria estar quieto, entretanto o zumbido, entretanto gritos entretém-me.
Havia um barco lá em cima, antes de saber-me humano-artesiano, neste momento o silêncio não poderia doer, mas ainda dói, o oceano faz a sua parte, constrange, os tímpanos explodem, o silêncio já não dói tanto, então, os pés amarrados desistiram da verticalidade, o fundo do barco sumiu, meu abdome se rompeu, só agora, escuro, o silêncio não dói, é adorno.
Marcelino
Escrito por inquieta às 00h33
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Rap 10 - 15/3/2006
Ditador – Marcelino - Volte para o lugar de onde você veio.
1- Day – 9,7
2- Marcelo – 9,5
Lar
Eu tentei novamente.
Fiz o maior esforço. Meu pai ficou exultante.
Almocei com a família aos domingos, fui com meus irmãos (os chatos) fazer inúmeras visitas.
Mas aquele cheiro de sândalo me enjoava, a música suave permitida pelo velho déspota me enojava. Palavras sussurradas, ordens murmuradas, me deixaram louco.
Cadê a cerveja, o pagode, o funk com as cachorras se rebolando doidinhas pra dar?
Cacete!
Mandei meu pai à merda de novo. Coloquei a mochila nos ombros e deixei o lar, não sem antes sentir um aperto no coração ao ver as lágrimas do velho ao me dizer as ultimas palavras: "Lúcifer, meu filho amado. Aqui é o seu lar e estarei te esperando de braços abertos.
Velho sacana.
Day
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Malebolgia
Fez tudo conforme a avó ensinara: o pentagrama desenhado no chão, as velas de sete dias e os cânticos numa linguagem desconhecida. E, de uma nuvem de fumaça negra, o demônio apareceu. A camisa regata justíssima no abdome globoso; as suíças quase se unindo ao bigode tingido de preto; o medalhão de lata simulando ouro caindo sobre o peito cabeludo, tilintando em assonância com as pulseiras baratas.
E agora ele está lá, sentado na poltrona da sala, com os olhos vermelhos fixos no futebol, sua cerveja e seus gases abdominais, e ela não consegue achar no livro a forma de mandá-lo de volta pro inferno de onde veio.
Marcelo
Escrito por inquieta às 00h32
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Rap 9 - 9/03/2006
Ditador – Segredo
1- Helena – 8,8
2- Marcelino – 8,7
Estações
Uma Ondina nasceu neste tanque e ninguém acredita.
Sol lavou todo pátio, minha tia decreta: é abril. Quase sempre, parece.
Dezembro esticado, janeiro perdido em janelas.
Fevereiro roubei suas flores, ninguém viu. Sou assim, meio março, ou abril.
A Ondina me disse umas coisas, mas você não me olha.
Nunca diz o que pensa.
Nem os peixes, a roda, o cavalo do tempo. O seu corpo é de pedra e nem
Sei se me vê, com a boca de água, sobre as folhas, a sombra. Sua boca que
Jorra o murmúrio de sempre.
Faz mal não, vivo assim neste abril.
Olho o tempo que passa.
Tudo mais é segredo.
Helena
Escrito por inquieta às 00h31
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O Tapete de Enoch
Entenda, mulher.
Durante tantos anos imaginei o segredo perdido. Fui ao templo, orei, busquei a resposta até nas equações do sistema solar.
Estava onde menos imaginei.
Aqui, sob a etiqueta, escrita pelo próprio Enoch. Leia e diga se não tive razão para fazer o que fiz.
Não havia outra saída.
Este é o único lugar possível para se manter a energia do tapete
Entenda, sem a luz do sol, as qualidades mágicas não se sustentam.
Não me convinha o sentimento mórbido?
Por acaso deveria eu assistir inerte a destruição de tudo que nos resta?
Eram culpados, sim. Construíram as torres.
Hoje vamos voar, querida.
Em alguns minutos a luz do nascente cingirá o tapete de Enoch.
Marcelino
Escrito por inquieta às 00h31
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Rap 8 - 10/2/2006
Ditador – Leila - comida
1- Marcelino – 9,8
2- Helena – 9,5
Profissão de Fé
Ao nascer do dia, Maria terá oito pássaros enterrados sob a cama do menino. Mesmo sem melhoras, ela mantém a esperança de ver o filho subir o monte das oliveiras.
De pé, ante a gaiola, ela recita sua profissão de fé: creio em ti, ave bendita. Toma a doença desse menino. Bica essa maldição e enxota para o inferno esse mal com o teu respirar. Abandona o teu viver benigno e põe as miraculosas meias, prometidas pelo anjo, nas perninhas de meu filho.
Amém.
Dito isso, despeja as sobras da comida do filho na gaiola.
Enquanto a mãe acende o círio e Jesus arrasta as pernas atrofiadas até o fogão a lenha, o pássaro estrila moribundo.
Marcelino
Escrito por inquieta às 00h30
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Rondò
Embrulho apertado no peito, ela calculava menus.
Com um ovo só: farofa, gemada, suspiro?
Sol forte, suor, frutos apodrecidos.
Baque
Aliança na mão, ele xingava: cadela, me fazer de corno, piranha!... casa em
Angra , lancha particular, casamento marcado.
Sufocava, procurou o remédio no bolso
Baque
Embrulho passeou no ar, se espatifou no chão quente
- Desculpe, senhora, foi minha culpa, compre outros ovos
- Mas é muito dinheiro!
- Leve isto também. Presente meu.
Entregou a aliança. Saiu livre.
Ela delirava: pasteis, carne assada, camarão
Baque
Cano frio na nuca
- Passa o anel
- Mas de jeito nenhum!
Baque
Tiros, gritos, omelete escorrendo entre o sol violento de verão.
Helena
Escrito por inquieta às 00h29
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Rap 7 - 21/2/2006
Ditador – Helena - Sorte
1- Marcelelino – 9,1
2- Tânia – 9,1
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