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RAPIDINHAS DA OE
 

Rap 14 -  19/5/2005

Ditador UK –Tema: Espinho

1 –  Day– m 8,4

2 –  Helena  – m 8,3

 

 

 

 

DOMINGO

Almoço, dias das mães. Ganhei um coração de chocolate. Sou diabética. Os netos, pequenos ainda, correm por entre as mesas da sala de jantar. Quase enlouqueço: o caçulinha acaba de quebrar o querubim de porcelana, presente de casamento. Eram dois. Marcelo, o pai, quebrou o outro há vinte anos. Hoje, barriga próspera, cachimbo caindo do beiço, pensa na amante.

Flávio, o caçula, tatuagens e um pacotinho no bolso de trás, dá um chupão na namorada de cabelo roxo e piercing na língua.

Suspiro e vou ao jardim tão bem cuidado. Falta de ter quem amar, cuido das rosas.

A mais linda, vermelha e cheirosa, me fere o dedo. Vou comer o chocolate.

 

Day

 

***

 

CHORE-ME

O sax gemia Cry me a river - chore-me um rio. Levantei descuidada e o coração caiu. Sai arrastando mágos, sem sentido.

Seus braços me envolveram e, coração retomado, acreditei. Coração caminhoneiiro, viciado em banguelas. Apenas um espinho incômodo, sem band-aid

A música me levava mais do que seus passos mentirosos.

Olhos frios, você me deixou na mesa.

Obrigado.

O espinho rasgou a carne e apareceu diante de todos. Furúnculo nojento de dor.

Chore me um rio.

 

Helena

Imagem - Rembrand



Escrito por inquieta às 21h35
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Rap 13 -  19/5/2005

Ditador Tania –Tema: Para onde vai essa estrada?

1 –  Paffo – m 9,2

2 –  Helena e UK  – m 8,7

 

 

A decisão

Alertado pelo xamã de que sua mulher era adúltera, o rei mandou trazer seus dois herdeiros à sala do trono.

Apresentou-lhes um quadro com uma maravilhosa estrada florida e perguntou ao mais velho:

- Para onde conduz essa estrada?

- Conduz à paz com nossos inimigos.

O rei voltou-se para o carrasco e ordenou:

- Mate-o.

A cabeça do mais velho rolou ao chão.

- Sua vez - sentenciou ao segundo, que havia se urinado todo.

- Er... bem, conduz à destruição dos nossos inimi...

Mais um gesto do rei e o outro filho foi decapitado.

O soberano ergueu-se e esclareceu:

- Se um deles fosse meu filho de verdade, saberia essa é a estrada do bar.

Paffo

 

***

Caminhada

Atravessei o deserto. Meu corpo estava castigado pelo sol, com bolhas dolorosas. Joguei fora as botas. Bebi dois goles e observei o cantil quase seco. Andara quilômetros e devia estar perto. No horizonte um camelo se aproximava. Sobre ele um beduíno..

Juntando as últimas forças, perguntei:

- Alá seja louvado! Amigo, seguindo para o Norte, o que encontrarei?

Meca, respondeu ele, inclinando-se naquela direção. E para o sul?

Meca. Outra inclinação. Exasperado, retruquei: Para leste, oeste?

Meca inclinava-se respeitoso

- Mas se todas as estradas vão para Meca, como posso chegar até Meca?

O velho sorriu: Meca é aqui. Ajoelhei-me e chorei. Por mais que eu andasse, estaria sempre no mesmo lugar . Dentro de mim.

Helena

continua

 



Escrito por inquieta às 21h23
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Rap 13 conclusão

 

Colheita

 

-Disgracêra!

- Zé - A mulher olha de soslaio para o homem ao seu lado -, pra onde nóis tam´ino?

- Essa tria tem que dá em algum lugar, xente! Ocê não viu o moço falá, fia?

- Eu vi...mais tem gente ruim dimais nesse mundo, Zé, e nóis taqui nessa terra istranha. Óia só - aponta com o queixo para diante- num vejo nada. Num tem o que comê, minha água tá acabano.

- Num dá pra vortá não. Tamo caminhano faiz dois dia; pelo que os pessoá falô farta pôco. Coragi, moleza!

 

Quatro cavaleiros galopam céleres sobre as dunas. Do corcel negro, que vem à frente, braços esquálidos se estendem para recolher os corpos cobertos pela areia.

 

UK

Imagem - Kandinsky



Escrito por inquieta às 21h14
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Rap 12 -  12/5/2005

Ditador Marcelino –Tema: Onde estão as folhas da nossa árvore?

1 –  UK – m 9,3

2 –  inquieta – m 8,9

 

 

Cotidiano

 

- Onde estão as folhas?

- Ahn?

- As folhas, mô!

- Não to entendendo, Marilza, que raio de folhas são essas?

- Querido, não tá vendo que a árvore tá pelada?

- Árvore? E eu vou ficar olhando pra árvore? Tenho mais o que fazer! - o homem abaixa os olhos e volta a ler o jornal na página de economia.

- Mas bem, é a nossa árvore - insiste a mulher - a árvore que plantamos quando fizemos um ano de casados - prossegue, quase chorando - Juramos cuidar dela. Como de um filho...

O marido interrompe a leitura por alguns segundos e dá dois tapinhas nas costas da esposa:

- Fica assim não, filha, vou comprar outra igualzinha pra você

 

Uk

 

***

 

As Horas

Era uma velhinha solitária, dessas franzinas, meio curvada e de olhos muito azuis.Um dia percebeu que o momento era chegado. Subiu ao sótão e, arrastando um velho baú , pulou a janela e sentou-se à beira do telhado. Foi abrindo devagar e com cuidado e ali estavam todas as horas de sua vida. Todas guardadinhas, em pilhas organizadas e amarradas com fita vermelha. As da juventude ainda palpitavam, as da maturidade tinham tons lilases Sem pressa ela foi soltando-as dos seus pacotes perfumados e espalhando-as ao vento. Elas dançavam no ar, como folhas de outono e sorridentes, voavam para longe. Quanto mais horas voavam mais transparente a velha ficava.

Até que se desvaneceu no ar.

 

inquieta

Imagem - Orson Welles - Rosebud



Escrito por inquieta às 20h59
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Rap 11 -  6/5/2005

Ditador Rubens–Tema: Vou dizer o motivo porque estou aqui.

1 –  Helena – m 9,2

2 –  Day– m 9,0

 

 

 

Meu lugar

 

O anjo abaixou a face severa.

Com as mãos transparentes me carregou em direção ao portão dourado. Olhei os jardins belíssimos, as faces plácidas, a música que sai de alaúdes afinados. Aquelas roupas brancas iguais - ninguém conhecido... me afastei correndo.

Atravessei disparado o corredor, tropecei em nuvens, me atirei de ponta cabeça no precipício rubro. No portão ELE me olhou gargalhante:

- Você aqui?

Mas abriu as grades. Corri para os meus amigos e fomos direto beber algumas na taberna infernal imunda, ouvindo aquele som irado e tentando esfriar a cabeça com algumas vadias muito gostosas.

A gente tem que saber reconhecer o seu lugar.

 

Helena

 

***

 

Vou dizer o motivo por que estou aqui

 

Arrumar a casa, limpar os vidros do quarto... viver é somente espanar os cantos, soprar poeira, varrer cotões... descobrir com espanto, embaixo da cama, teias antigas, velhas aranhas... não ter jeito e espanar da aranha, a teia.

E todos dirão no meu enterro:

Uma negra de alma branca...tão limpinha....

 

Day

Imagem - Beryl Cook



Escrito por inquieta às 20h40
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Rap 10 -  21/4/2005

Ditador Plhavyus–Tema: O tempo

1 –  Ana– m 8,6

2 –  Helena – 8,3

 

 

 

O Senhor do Tempo

 

O Senhor do Tempo abriu as mãos. Os milênios escorreram como se fossem meros segundos. Galáxias surgiram, estrelas nasceram, planetas se formaram. Mas achou pouco.

O Senhor do Tempo soprou. E os milênios partiram-se em séculos. A Vida brotou: água, chuvas, vulcões e terremotos transformaram a sua obra anterior. Mesmo assim não ficou satisfeito.

O Senhor do Tempo abriu os olhos. Dos séculos, surgiram anos. Vieram as civilizações, grupos pequenos, pintores de paredes; viravam aglomerados informes de população, que construíam templos e obras gigantescos.

O Senhor do Tempo começou a se sentir satisfeito. E as civilizações começaram a se destruir, colocando toda a criação em risco. E Ele fechou os olhos.

Mas era tarde demais.

 

Ana

 

***

 

Assunta e o tempo

 

Assunta foi dormir no dia 23 de maio de 2004 e acordou em 18 de junho de 1994. Saiu tonta da cama, colocou pó na cafeteira velha, que pareceu mais brilhante - bom este novo detergente!, o gato pulou do sofá com uma agilidade que não tinha mais – o cheiro das sardinhas faz milagres!... Pegou o jornal: corrupção, violência, políticos safados... cansaço. Ligou a TV: programa feminino, culinária. Mudou o canal: programa feminino, culinária. No outro fofocas velhas.

Procurou os remédios, não achou Desistiu e apanhou o novelo de lã, começaria uma manta; no espelho seu rosto parecia igual. Muito tarde para correr atrás

 

Helena

Imagem - Dali



Escrito por inquieta às 20h27
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Rap 9 -  24/3/2005

Ditador Samaris–Tema: Um grito

1 –  Ana

2 –  Helena

 

 

 

Banshee

 

A fome veio após a Guerra. Entre escombros e cadáveres, a sobrevivência era dura. A menina escavava o chão duro em busca de raízes para alimentar-se. Os pais desapareceram quando as bombas começaram a cair. Roendo uma batata semi-apodrecida, percorreu as ruas de Belfast. O cenário desolado lhe era familiar. Assim como a própria solidão. Por instinto, se afastava dos outros seres, humanos ou não.

Mas aqueles chegaram de surpresa. Famintos como lobos, ignoraram o fato dela ser apenas uma criança. A pele, macia apesar de tudo, foi facilmente retalhada por facas afiadas. Ao se deliciarem com a carne, ouviram um grito medonho, assustador. Um dos homens, ainda são para lembrar-se de velhos medos, benzeu-se, resmungando.

- Maldita banshee.

 

Ana

 

***

 

Ponte frágil

 

Ao redor apenas o quase silencio, líquido.

Todo o sentimento, mar profundo, um surdo tocando em algum lugar. Tranças de prender, caverna escura, água salgada, intensa, vermelhos atemporais.

Terremotos, tsunamis, corredeiras, águas que arrastam lavas, mar ardente

Empurrado, puxado, despregado,

Enfim, vê a luz no fim do túnel.

Seu grito desperta a vida.

Ponte entre o silêncio e o nada.

 

Helena



Escrito por inquieta às 20h16
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Rap 8 -  24/3/2005

Ditador Marcelo–Tema: Esqueletos no armário

1 –  UK– m 9,58

2 –   Phlavyus - m 9,41

 

 

Para sempre, Amor

 

A garota olha ternamente o esqueleto pendurado no armário.

- Já escolhi o seu terno. Gostou? – aponta para a roupa sobre a cama -Você não vai à minha formatura, mas vou deixá-lo vestidinho!

Silêncio.

- Não gostou? – grita -Não gosta de nada que eu faço, pai. Isso me deixa triste, muito triste!

Lágrimas rolam sobre as faces rosadas.

- Você se esquece de quem não te esquece, quem numa noite de chuva te desenterrou depois de cinco anos e te montou como um quebra-cabeça.

Soluços cortam o silêncio da sala.

- Pois está de castigo! Vai ficar sozinho!

A menina bate com força a porta do armário. Lá dentro, ossos tilintam abafados e logo silenciam.

 

UK

 

***

 

Por falta de atenção

 

Mamãe não me escuta. Ela fala, eu ouço, "meu filho, não faça isso", "não chegue tarde", "não fume em casa". Papai não liga, eu poderia dormir fora e ele não repararia. Do pirralho, nem tomo conhecimento, ele fica no seu canto e não dá o menor trabalho.

Mas mamãe... ah, que saco! O que você quer agora? Ainda que esteja na escola, eu escuto ela falar. Posso ir ao cinema e ela não pára de me importunar.

E não é por falta de atenção. Todo dia eu chego em casa, dou boa noite aos três, fecho o armário e vou dormir. E perdôo mamãe: ela demorou mais para morrer.

 

Phlavyus



Escrito por inquieta às 19h52
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Rap 7 -  17/3/2005

Ditador Phlavyus–Tema: Faca de dois gumes

1 –  Helena– m 8,5

2 –   UK - m 8,4

 

 

 

Dupla jornada

 

Retocou o rímel, de olho no relógio. Contornou os lábios, vestiu o casaco e pegou a bolsa. O motorista a deixou no shopping. No banheiro, pulverizou o corpo de perfume, Guardou o casaco na sacola, puxou os seios para fora do decote, sorriu para sua imagem.

Pagou o táxi em frente ao hotel barato. O porteiro reclamou do atraso:

- Vai à merda.

Voltou suada, cansada, sentindo-se suja. Jogou saia e bustiê na máquina de lavar e tomou um longo banho de espuma . Vestiu o roupão, ligou a tevê, apanhou a caixa de bombons suíços.

Uma hora depois, o marido chegou. Abraçou-a com carinho.

" Um homem tão bom..."

Chorou sobre os papeis laminados na colcha alva.

 

***

 

Faca de dois gumes

- Pode não, pode não, diacho!

 

O velho resmungava, escondido atrás de uma pilastra. Hora e outra esticava o pescoço e olhava na direção do casal que se abraçava num canto escuro da plataforma.

Cada vez mais possesso, por fim, sacou uma peixeira da bainha.

- Sem-vergonhice só se paga com a vida! - resmungou entre dentes, partindo para cima dos dois.

O casal, já quase em vias de fato, nem percebeu o pai da moça que vinha correndo e escorregou numa camisinha, caindo sobre a faca que trazia à mão - um baque seco abafou o grito mudo; o peito aberto falou mais alto, deixando mais uma mancha no piso encardido da estação.

 

UK



Escrito por inquieta às 19h51
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Rap 6 -  6/3/2005

Ditador Tania–Tema: Indiferença

1 –  Helena– m 8,3

2 –  Ana -  m 8,1

 

 

 

Noturno

A chuva tornava brilhantes as poças, refletindo as luzes da cidade. Sentada nomeio-fio, ela sustentava os trapos, recortava com uma tesoura imaginária, enfeitava a carapinha, se olhava na água suja, ria sem dentes.

Embalava a coberta ensebada, os chumaços de algodão que ia tirando do saco

imundo.

Os passantes desviavam o trajeto, o olhar, o coração, daquela cena indigna.

A sirene cortou a umidade da noite. Dois policiais pegaram a mendiga pelo braço.Ela chorava, agarrado ao cobertor, gemia diante dos pedaços de pano que iam sendo jogados na lama.

"Não!, não!... são minhas!... "

Na chuva se desfaziam os trapos coloridos. Com um gemido a mulher caiu, segurando os panos sujos.

Vermelhos como sangue, como rubro sangue humano.

 

Helena

 

***

 

O preço da indiferença

-Tem certeza de que é capaz disso?

-Já te falei que sim. Sou profissional. Mais um, menos um, que diferença faz?

Um bilhete foi passado de um para outro.

-Aqui é onde ela estuda. Sai pontualmente às oito. Hoje foi de sobretudo amarelo.

O assassino assentiu com a cabeça e foi para a tocaia. Esperou com a paciência de um predador. Na hora certa, a moça saiu. Sobretudo amarelo debaixo do braço, só percebeu que estava sendo seguida tarde demais. Ele já havia encostado a arma em sua nuca e apertado o gatilho. Nem suspirou ao cair. Para conferir, virou a moça de rosto para cima. O choque quase lhe matou. Era a sua filha.

 

Ana

Imagem - Kandinsky



Escrito por inquieta às 18h54
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Rap 5 -  16/2/2005

Ditador Day–Tema: Solidão

1 –  Uk– m 8,7

2 –  Tania -  m 8,3

 

 

PASSARIM

- Vamuvê a rua, nêgo!

O velho apanha a gaiola dependurada na área de serviço.

- E quentar um poquim...

Caminha para a janela lateral que recebe o sol do fim da tarde.

- Não vai cantar, monêgo? Canta pro Alaor, canta!

Passopreto enjaulado não faz festa. Está recolhido a um canto, cabisbaixo.

- Olha – o velho aponta para um ponto onde o paredão de edifícios que os cerca ameaça mergulhar numa nesga de azul –, aquilo podia ser seu. – Abre a gaiola e delicadamente toma a avezinha com as mãos em concha. Olhos nos olhos irrequietos: - mas são tantos perigos, tantos...Aqui estamos seguros – beija-lhe a cabecinha.

O passarinho não canta.

 UK

***

Hora do Ângelus

Olhar pidão,lábios sem sorriso,andar cansado.Figura triste de se ver. Não conhecíamos o tom de sua voz.Jamais ouvimo-lo emitir palavra. Chegara em manhã fria, quase congelando,pés descalços.Desde então,na hora do Ângelus, passava,diária e tristemente rumo à igreja.

Batizamo-lo, Mudinho.

Curiosidade é coisa que dá coceira! Em certo dia,fui atrás. O que fazia lá, diariamente? Orava?

Entrou. Entrei, também. Sentou. Copiei o ato. O tempo ia passando, e nada.Num repente, alguém tocou meu ombro,por trás. Virei -me,rapidamente.

Ninguém! Mudinho sumira..

Meus olhos percorreram toda a igreja num segundo. Apavorada!

A cruz, antes vazia, tinha,agora, uma imagem do Cristo,mudo, totalmente só.

Tania



Escrito por inquieta às 18h44
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Rap 4 -  10/2/2005

Ditador inquieta–Tema: Carnaval

1 –  Helena – m 9,2

2 –  Marcelo -  m 9,0

 

 

 

Velha alegoria

O confete escorria entre restos da chuva. No meio fio, passistas massageavam pés doloridos. Olhos pisados, lágrimas que ultrapassavam a dignidade ofendida.

Descendo dos carros, velhos sambistas desfilavam a mágoa, samba da violência. Proibidos de desfilar.

Conversas nervosas entre dirigentes, celulares estalando. Vamos perder nota? Vamos perder tempo? Vamos enxotar os velhos, encaixotar os velhos atrás do segredo?

De repente, uma ordem seca - a porta se abriu. A Velha Guarda ultrapassou as grades, penetrou na Avenida.

Nem um surdo, um repique, um tamborim. Apenas palmas cadenciadas da multidão, de pé, aplaudindo.Atravessaram a Avenida cantando o samba, sem bateria, plumas ou paetês.Olhos molhados, a dignidade reencontrada.

A mais bela alegoria do Carnaval. Dez, nota dez.

 

Helena

 

***

 

Amor de carnaval

Sentindo a língua roçando-lhe no pescoço, Clodoaldo ainda surpreendia-se com a coragem que tivera. Tudo bem, era Carnaval - ele, de presidiário; ela, de vampiresa - mas ainda assim a abordagem fora ousada. Chegou juntando – a pinga deixando-o mais macho. É que lhe enlouqueceram aquelas coxas, aquela bunda, aquela pele branca, aquilo tudo, a batida do surdo martelando na cabeça. Arriscou um beijo. Ela topou. Mais de mil palhaços no salão, ele ria. Mão na bunda. Sem reação. Ele arriscou, no ouvido:
- Tu chupa...?- Claro...- e que voz! Maliciosa. Levou-a pro canto mais escuro, onde agora sente a língua roçando-lhe no pescoço.

E então, vem a mordida.

 

Marcelo

Imagem - Di Cavalcanti



Escrito por inquieta às 18h19
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Rap 3 -  27/1/2005

Ditador Roderico–Tema: Guerra

1 –  inquieta – m 6.94

2 –  UK -  m 6.81

 

 

 

Jogos de guerra

Campo devastado, muito frio. Neve já enterrando os cadáveres. Ainda, aqui e ali, um gemido. Crianças começam a chegar descendo pela colina e, enroladas em agasalhos esfarrapados, vagam pelas crateras. Aves escuras, atraídas pelo cheiro adocicado da morte mancham a brancura do céu. Meninas reviram os corpos, tiram capotes, botas, procuram nos bolsos. Conversam e riem. Tudo vale ouro. Meninos apanham armas ainda sangrentas. Arrancam baionetas de corpos crispados. Um deles chuta um capacete caído, o outro repica. As meninas batem palmas.

 

Começa um jogo.

 

Risadas em campo de morte.

inquieta

 

***

 

Obsessão

 

- Guerra, é? Então você vai ver...

- Não, querida, por favor, você sabe, eu sou da paz.

- Desde o nosso casamento... - soluçava a mulher. - Não cansa de me trair, é?

Uma faca de cozinha nas mãos deixou em frangalhos o blazer do marido.

- Toma este trapo, vou fazer o mesmo com o resto dessa roupa suja de safadeza - jogou o pedaço de pano retalhado na cabeça do homem.

- Olha o que você fez, sua louca!

- Quequicê pensa? - chorava baixinho, voz embargada - Acha que eu não tenho sentimento?

- Cida, mas eu não fiz nada. Nada!

- Como é que eu não consigo achar um cabelo na sua roupa?

UK

Imagem - Picasso - Guernica



Escrito por inquieta às 18h06
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Rap 2  27/1/2005

Ditador Helena–Tema: Coração de estudante

1 –  Marcelo – m 8,3

2 –  Rubens -  m 8,1

 

 

 

RECEITA DE MASSA

 

INGREDIENTES:

 

Coração de estudante

Braço de operário

Pulmão de mineiro

Cabeça de dinossauro

Língua de trapo

Cérebro de...(não, melhor deixar sem esse ingrediente).

 

MODO DE PREPARO:

 

Agite bem a massa antes de usar; bata devagar, sem que ela perceba. Leve ao forno para que cresça, depois jogue-a na rua, pegue seu avião e vá para Davos discutir o rumo da economia mundial.

 

Marcelo

 

***

 

O Zero Fatal

 

- Desculpe Agenor, mas você tirou zero.

Agenor não agüentou, como zero? Fiz tudo direito, deixa eu ver esta prova. Olha a prova e percebe que trocou tudo, inverteu os números, não consegue acreditar, o que eu fiz? Tem outra chance professor? Olha minhas outras notas, não sei o que aconteceu, não sei o que aconteceu. O professor alega que nada pode fazer, mas que Agenor recupera fácil isso, não se preocupe.

Difícil falar isso para Agenor, sempre presente e atento, sempre nota dez, nunca menos, nunca erro. Agenor não agüenta, não sei o que aconteceu, sente uma dor no peito. Infarto fulminante. Tinha 12 anos e nunca soube o que aconteceu.

 

Rubens

Imagem - Kokoschka



Escrito por inquieta às 17h53
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Rap 1 – 21/1/2005

Ditador UK –Tema: Brinco

1 –  Helena – m 7,4

2 –  inquieta -  m 7,2

 

 

 

 

Lição de casa

 

A mão parecia enorme com o brilho do pingente. Voz de trovão procurando a pecadora: Quem perdera o brinco durante a noite no quarto do primo Edgar?

Três pares de olhos abaixados, peitos arfantes, medo e vergonha Mariana sentia o arpão procurando mais fundo, a voz da mãe escarafunchando a ferida. Primo Edgar calado, faces em fogo. Quatro corações disparados.

"Mas eu vou descobrir!!!" O eco passeava entre os móveis. "E você volta hoje mesmo para Ouro Negro!"

A desculpa abafada na navalha da voz, primo Edgar arrumando as malas.Escapuliu até a fronteira do perigo e encarou o mentiroso. O brinco não era meu!...

O outro, cabeça baixa, explicação nenhuma.

Mariana aprendeu a traição.

 

Helena

 

***

Sem mistificação

 

Olho no olho, ela foi lhe desenhando a boca com os dedos leves, como se o gravasse todo no coração. Roçou -lhe as têmporas, escorregou nos olhos.

Ele sorriu enternecido. Ela soprou um beijo.

A hora era chegada. Ambos sabiam que ela chegaria.

Ela começou a juntar suas marcas. Colheu o desejo no ar e o colocou na frasqueira. A ternura guardou no estojo de jóias, os afagos na sacola lilás. Com algum esforço conseguiu empacotar o carinho, mas da saudade ela desistiu. Já era tão grande que não havia como recolhê-la.

Apanhou a bolsa, seus brincos, ainda na cabeceira. Ele não fez um gesto.

Era o combinado. Sem engodos, sem mistificações.

 

inquieta



Escrito por inquieta às 17h22
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Rap 10 – 2/12/2004

Ditador UK –Tema: Chuva

1 –  Helena – m 8.9

2 –  Rafael Chedid m 8.7 

 

 

Chovemos

E ainda estamos aqui, parados, esperando a hora. E por todos os séculos choramos e acreditamos e nem assim você apareceu. e pensamos que haveria uma chegada com trombetas, mas só veio o silêncio imprevisto da noite eterna. E pensamos que estrelas brilhariam, mas nossos olhos contemplaram o vazio negro da ausência.

E esperamos um sol de verdades ofuscantes, mas só houve o brilho de nossas próprias lanternas cegas. E conhecemos que estávamos sós, no barro, na lama, no pó de onde viéramos. E apenas a chuva nos molhando enquanto aqui, como estátuas de pedra, esperamos alguém que talvez chegará. Talvez é nossa moeda de troca com o delírio. E de olhos fechados, chovemos.

 

Helena

 

***

 

Amor que não se mede

 

Ela percebeu que o fim se aproximava. Agora, depois de todas as brigas, ele ia mesmo embora. No chão, as malas prontas.

- Pense em nossos filhos... – implorou.

Não adiantava, o antigo argumento já não o sensibilizava. Ele chacoalhou a cabeça, aquela conversa tantas vezes já se repetira.

- Você sabe que eu o amo muito, muito... Não pode reconsiderar?

Olhou para ela, compungindo. Não, já não podia reconsiderar.

Lá fora, em meio a relâmpagos e trovões, a água caia torrencialmente.

Ele apanhou as malas, abriu a porta e deu dois passos.

- Querido...

Ele olhou para ela uma última vez.

- Leve um casaco. Está chovendo tanto...

 

Rafael Chedid

Imagem - Chagall



Escrito por inquieta às 17h07
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Rap 9 – 25/11/2004

Ditador Helena –Tema: Armadilha

1 – inquieta

2 – UK

 

 

 

 

 

Armadilha.

 

Quando a curuminha começou a rondar Nabor ficou todo eriçado.Um espelho, colares, radinho de pilha, e ela já vivia pelo barco sondando. Aí ele lhe mostrou a revista cheia de mulheres lindas, de pernas compridas e sorriso que não faltava dente. A menina deslumbrou, alisava o papel brilhante, nem respirava direito. Ele contou da cidade grande, do brilho, das luzes, ela ouvindo com o corpo todo, tão atenta que não sentia os dedos lhe procurando as partes, até que, com um piar de passarinho, lhe abriu as pernas e o velho roncou naquela macieza até vazar em um resfolegar asmático e cair adormecido.


Com um olho no peixe e outro no gato, ele levantou âncora antes do amanhecer.

 

inquieta

 

***

 

Armadilha

 

Estava tudo armado e caí feito um patinho. Logo eu, apelidado Janjão das Mocréias pela galera despeitada que disputava a laço as coroas endinheiradas no Bar-lanchonete Noite de Estrelas. Mas também um mulherão daquele, bundão bem brasileiro, peitinhos durinhos, dando mole pra mim, que é isso?! Eu tinha que mandar ver mesmo! Depois de umas biritas, cheguei junto e fui logo arrastando-a pra um motel pronto-socorro no quarteirão em frente. Beijinhos e esfregas, chupões e apertadinhas, "vamos logo pra caminha".

 

De repente, o mundo apagou –me, deu uma porretada, roubou toda a grana e ainda escreveu o nome a gilete na minha coxa, o nome de batismo: Roberval.

 

UK



Escrito por inquieta às 16h01
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Rap 8 – 18/11/2004

Ditador Phlavyus –Tema: Presente de aniversário

1 – Cristo

2 – inquieta

 

 

 

Meu presente

 

É complicado presentear homem, ainda mais ele, que já tem tudo. Perguntei aos seus amigos; disseram que sempre lhe dão um litro de uísque e ele fica feliz.  - é, eu sei, principalmente depois que bebe tudo. Mas não sou um dos seus amigos; tinha que dar algo especial. Fiquei com bolhas nos pés de tanto rodar no shopping e não encontrava o que comprar. Enquanto andava eu refletia; há algum tempo a idéia vinha amadurecendo - um dia teria que acontecer -, então me resolvi e comprei uma lingerie linda.

Ele estava bêbado quando lhe dei meu bem mais precioso; minha virgindade anacrônica foi perdida dentro do carro. No dia seguinte reclamou que eu esquecera do seu aniversário.

 

Cristo

 

***

 

Raul

 

Tuas malas estão no hall. As crianças na casa da D Maria.

Quero que você se foda !!!

Hoje a tarde a floricultura chegou, as rosas eram lindas, o cartão um mel, o anel que estava junto uma jóia rara, e a tua letra, lá, linda e redondinha.

Só que eu não chamo Claudia e meu aniversário já passou. Também não sei o endereço daquele motel.

Te dou duas horas pra sumir.

 

Mariana

PS- No meu aniversário seu presente foi uma panela de pressão.

 

inquieta

Imagem - Chagall



Escrito por inquieta às 15h42
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Rap 7 – 11/11/2004

Ditador Cristo –Tema: Minha história é vulgar

1 – Phlavyus

2 - inquieta

 

 

 

 

 Outro dia de trabalho

 

Dona Maria não tinha noção. Não pegava bem uma mulher já cinqüentona vestindo blusa de oncinha, mini-saia três números abaixo da cintura, meia arrastão e sapato plataforma salto 15... ainda mais num hospital, ambiente de trabalho de respeito. Pois era doutora, sim, e ai de quem a confundisse com uma vagabunda qualquer.

Se era assim em serviço, imagina como não saía à noite...

Convidada para uma festa chiquérrima num apartamento na Atlântica, laqueou o cabelo, pintou rosto e sobrancelha, escolheu sua melhor roupa. Seria apresentada a toda aquela gente que aparece semana após semana na coluna da Danuza; talvez ela própria aparecesse.

Não é de se espantar que tenha ouvido do taxista:

 

- Bom trabalho, madama!

 

Phlavyus

 

***

 

Cápsulas azuis

 

-Agora coragem!

-É isso, nunca tive coragem.

-Chega!

Um banho, maquiagem, vamos lá ... tem que ficar bonita. Preparar o cenário... tudo em ordem. Não pensar... não pensar..... não ... tirar o telefone do gancho ... aquele cd do Gardel....

-Estou pronta.

-Onde o vidro ?

-Ah...aqui, na bolsa.... as cápsulas azuis...

 

-Bilhete? Claro que não. O motivo é vulgar. Tão vulgar como minha vida.

 

inquieta

Imagem - Beryl 



Escrito por inquieta às 04h09
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Rap 6 – 28/8/2004

Ditador Marcelo –Tema: Academia

1 – Helena

2 - Cristo

 

 

 

 

UMA ESTRANHA NUMA TERRA ESTRANHA

 

Olhou as caras gélidas na sua frente. Difícil. Seus amigos estavam no carnaval lá fora: clones, andróides, ciborgues, os luminosos seres de Plâncton, os emissários de Antares.

Precisava agradecer. Esperavam que fosse inteligente, engraçada.

Bateu de leve no microfone, o som retornou forte demais, acoplado a uma dor aguda... ....a última coisa que viu foi um sorriso de gato...

Acordou com o incinerador se desligando.

A décima quinta versão do conto se fora. No ritmo em que ia a coisa, com a falta de inspiração que a estagnava, nem precisaria comprar combustível para o inverno.

E sonhando que entrava para a Academia?! Só sendo assassinada nofinal. Freud explica. Ou Cristo.

 

Helena

 

***

 

A Posse

 

As ruas do Brasil viram o entusiasmo de robôs, homens verdes, monstros,  vampiros e toda variedade criaturas exóticas, extasiadas, alegres, bêbadas.

Multidão de malucos em São Paulo, dúzias de loucos no Rio, e até mesmo um festejador solitário desfilando vestido de Cristo em Curitiba.

Ninguém acreditava que esse dia chegaria, mas não havia dúvidas que ela era a única pessoa capaz de tal proeza. Alheia a toda felicidade que provocava, esperava solene, loira e encasacada  para a posse da cadeira 13 da ABL.

Nervosa, repetia movendo os lábios silenciosos o verso do tio com que abriria seu discurso; - "Não posso deixar de agradecer as análises do UK".

E finalmente a FC foi reconhecida através de Maria Helena Bandeira

 

Cristo

Imagem - Miró

 



Escrito por inquieta às 04h02
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Rap –5 – 28/8/2004

Ditador – UK –Tema – Porca ladrona

1 – Helena

2 - Rubens

 

 

 

 

CONTO DE FADAS

 

O cortiço fervilhava àquela hora mordente..

Pernas, braços, bundas, seios, picas, sêmens, sexos.

Gritos cortando a noite morna, encalhando nos bueiros fétidos por onde escorria o lodo da madrugada

Cinderela saiu mancando do quarto.

Devolve a porra do meu sapato, sua porca! Cabelos voaram entre arquejos e unhadas.

No travesseiro ao lado, o Príncipe roncava. Marcas do sapateado erótico ainda avermelhavam a barriga redonda.

Ao pé da cama o brilho cintilante de cristal.

 

Helena

 

***

 

FAUNA

 

Porca ladrona me roubou o coração e meu último cinco reais. Não faz mal. O dinheiro recupero. O coração já tá se erguendo. Tô de olho naquela vaca da minha vizinha. Se falhar tem a galinha da frente, senão der também, vou me apaixonar pela primeira cadela que aparecer. E ainda tenho de reserva cobras, peruas, cavalas...

Sozinho é que não vou ficar.

 

Rubens

Inagem- David La Chapelle



Escrito por inquieta às 03h52
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Rap –4 – 21/10/2004

Ditador –Rubens –Tema – Hoje caí em tentação

1 – Ivan

2 - Nana

 

 

 

Aqui até o CAPEta PECA

 

O capeta em pessoa veio visitar a terra para levar almas para seu reinado.

Numa tal de Avenida Paulista, numa tal de São Paulo, num tal de Brasil, esperando num farol dentro de sua Mercedes ermelha, o diabo é abordado por uma menininha de sete anos, num vestidinho vermelho :

- Moço, me compra uma bala ?

Satanás estica o pescoço, tentando ver a calcinha da garotinha ; mas, lá no fundo, vem de repente uma pena daquela criança, tão pequena e já desesperançada.

Lúcifer exclama então : - Valha-me Deus !

Só então verifica ter caído em tentação duas vezes na mesma hora.

Lembrou então que no contrato original o pecado tinha dupla face.

 

Ivan

 

***

 

Uma breve tentação

 

Encaro a janela lá fora. Confiro se a porta está trancada. Colo o ouvido namadeira. Nenhum som. Estou só na solidão. Eu me sento na cama ainda sentindo que sou toda a inutilidade do mundo. Nas minhas mãos, eu carrego o meu destino.Nãoresisto ao impulso que arde na alma e tomo a pílula da morte. Alguém bate e eu não vejo nada além de estar no universo junto das estrelas. De repente, sinto um tubo pelo nariz e me vejo de volta à vida. Quase lá. Leva-se menos de um segundo para se ter uma tentação e uma vida toda para se redimir consigo mesmo.

 

Nana

Imagem- Chagall

 



Escrito por inquieta às 03h46
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Rap –3 – 14/10/2004

Ditador – inquieta - Tema- O puteiro

1 – Ivan

2 -Marcelo

 

 

 

O Bordel Substancioso

 

Madame ouve o alarido e vai conferir. Sobe as escadas apressadamente.

- Aonde ? Aonde ?

No quarto da menina nova, aquela que lê Aloísio de Azevedo - informa a Joana

Corrimão, bastante escolada.

Entra sem bater, e indaga :

- Onde está o cliente, meu bem ?

A putinha chora na cama.

A cafetina grita :

- Aonde está o meu cliente, porra ?

 

A menina desembucha :

- A senhora mandou, eu comi ele.

- Era o contrário, sua vadia. Isto é que dá putana literária.

 

Ivan

 

***

 

A FILHA DA PUTA

 

Adoro quando mamãe me leva pro serviço, nas vezes em que a tia Rosane não pode ficar cuidando de mim. Tia Rosane também trabalha muito, como mamãe.

Entro no serviço levada pela mão, e logo fico a olhar aquele monte de luzes coloridas, a escutar o ritmo arrastado dos boleros. As colegas de mamãe são todas muito atenciosas e simpáticas. E bonitas. Mas mamãe é a melhor de todas.

Os clientes só querem saber dela. Acho tudo isso muito legal.

 

Quando crescer, quero ser igual a ela.

 

Marcelo

Imagem - Chagall



Escrito por inquieta às 03h39
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Rap – 2 – 7/10/2004

Ditador – Helena - Tema- De repente, no último verão

1-     Bozz

2-     Phlavyus

 

 

 

 

Choveu muito nesse verão.

 

Foram as monções gritando tempestades tropicais. As gotas trasbordaram, a lama escorreu. Afogou meu animo e afogou os animais. Eram duas vacas, três porcos e uma dúzia de galinhas. Só sobrou arroz verde encharcado e um pouco de farinha. Talvez eu deva nadar até os desertos do atlântico para catar ossos secos. Servem para secar o solo encharcado por causa desse tempo.

Clima mudou muito, agora a chuva vem forte, e as enchentes são de matar. E teve gente que dizia que seria um paraíso quando o Sertão virasse mar.

 

Bozz

 

***

 

Desidratação

 

Oito horas da manhã, o termômetro já marcava 42º à sombra. A previsão do tempo anunciara o dia mais quente dos últimos 50 anos. Pedro poderia estar na praia a uma hora dessas, ou ainda dormindo no seu quarto refrigerado. Que nada, vestia seu terno preto com gravata listrada de amarelo e branco.

"Não é nem higiênico trabalhar num dia desses!"

Às 10h, notou que a manga lhe escapava pelas mãos.Voltou do almoço e o cinto mal segurava a calça.Ao final do expediente, pulou da cadeira e tropeçou na barra da camisa.

Cruzou com colegas que estranharam que peças de roupa andassem sozinhas sem cabeça, braços ou pernas. Até que pararam e ali ficaram, encharcadas de suor.

 

Phlavyus

Imagem - Sebastião Salgado

 



Escrito por inquieta às 03h30
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Rap – 1 - 29/9/2004

Ditador – Ivan -Tema- A mulher que viu demais

1-  UK

2-  Day

APELO

 

- Pega aí, pega logo!

- Ai, padre, põe na minha boca!

- Irmã Anunciata, se a senhora não pegar, a hóstia vai cair no chão.

- Por que o senhor não põe na minha boca como faz com as outras irmãs?

- Porque a senhora é jovem, respondeu o sacerdote. As outras são velhas; se eu não colocar na boca...

- Mas padre, eu também quero!

Um tanto indeciso, o padre depositou a hóstia sobre a língua tímida que se apresentava. Inadvertidamente, tocou a pele aveludada da bochecha, o suficiente para desencadear o movimento involuntário de seu membro, que alavancou o pano da batina. A irmã tendo visto tudo, fechou os olhos, benzeu-se, e saiu mordendo a hóstia.

 

UK

***

Antepasto

 

Juro que vi. Ela estava na minha frente pedindo ao garçom com ar coquete “um sorvetinho, sim?”. Só faltava ser diet. Morri de vergonha do meu chopinho pela metade.

Ainda não acredito, mas vi aquela boca vermelha se movimentando e contando todos os detalhes do “namoro” entre a mulher e meu marido. Foi nessa hora que deixei de escutar o burburinho do bar e vi mais do que deveria, palavras saindo pelos lábios, se enrolando na língua e nos dentes minúsculos, brancos. Eu vi, juro que vi as letras tomando forma, ficando robustas. Caírem destemperadas no chão com estardalhaço, olharem indecentes por debaixo do meu vestido. E depois, quando a mulher se foi, ainda fiquei por muito tempo, catando as palavras deixadas para trás e enfiando-as de qualquer jeito dentro da bolsa de palha. Não fui ao mercadinho naquela tarde. Jantamos palavras liquidificadas e elas tinham gosto de dor.

 

Day



Escrito por inquieta às 03h20
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