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RAPIDINHAS DA OE
 

Rap 20 -  6/7/2005

Ditador Leila –Tema: Mas o coração acha beleza até onde o espírito considera vergonhoso

1 –  Paffo  – m 9,3

2 -   Marcelo – m 9,0

 

 

Cores

– Vi um casal se agarrando na grama – reclamou o espírito – indecentes!

– Amor e flores não escolhem onde devem brotar – respondeu Lara, deitada em lençóis de cetim.

O espírito saiu pela janela e retornou, rosnando:

– O filho do vizinho quebrou o braço!

– Aprender é errar – disse Lara.

O espírito finalmente perdeu a paciência:

– Porque defende as pessoas?

– Gosto delas.

– Mas foi essa gente lá fora que nada fez quando atropelaram nossa mãe.

– Eu sei.

– Ela nos carregava nos braços, lembra?

– Você morreu, mas eu sobrevivi – Lara se entristeceu – sinto tanto por você.

– Acorde, Lara! – enfureceu-se o espírito – você está presa nesse quarto porque perdeu as pernas!

– Mas não perdi o coração – sorriu Lara – o pincel mágico que colore meu mundo

Paffo

continua



Escrito por inquieta às 13h12
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Depois da tempestade

 

 Do alto de minha morada observo os últimos vestígios da tempestade que eu mesmo conjurei.

- Vergonhoso – constata Ariel, referindo-se ao lodaçal que se acumula na entrada da toca de Caliban, mescla de lama, folhas apodrecidas e esterco de pequenos animais. Se tivesse carnes, Ariel sentiria suas narinas invadidas por um odor acre.

É quando, lá embaixo, Caliban deixa sua toca e debruça o corpanzil disforme e trôpego sobre o lodaçal. Com modos demasiado gentis para seu tamanho, lança sementes diminutas no solo pútrido.

E, das folhas mortas e dos despojos da vida, brota uma frágil rosa de pétalas multicoloridas.

 

Caliban finalmente supera minha Arte.

 

Marcelo

Imagem - E Hopper



Escrito por inquieta às 13h07
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Rap 19 -  30/6/2005

Ditador Phlavyus –Tema: O abutre comeu meu pé.

1 –  Marcelino– m 8,5

1 –  Helena  – m 8,5

2 -   Marcelo – m 8,2

 

 

 

 

Carne de mim

 

Essas carnes, longe de mim mesmo, ébrias de saliva, na boca do abutre, acusam-me depressão escavada em meu peito, pela qual minhas lágrimas escoam, ou escoaram toda minha vida. Essa ave maldita faz um trabalho manual sem saber-me vivo ou morto, porque estou em fogo e não sei como sair dele. Pois em verdade, quando estive só, jejuei as carnes de minha mãe, estirada ao pé do enforcado. Nada disso me acontecia, gratuitamente. O velho homem, pai de meu pai, disse-me, vá embora, e de agora em diante coma teus pés, durante algumas horas, e torna-te abutre de ti mesmo, torna-te salvador de tuas desgraças, sem desmerecer o sangue que lava a pedra negra de tuas culpas.

 

Marcelino

 

continua



Escrito por inquieta às 03h49
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Eu acuso

 

Durante séculos, o maldito come meu fígado. Porque te desafiei, Zeus! Estás ouvindo? Durante séculos e não desisti!. Mas finges que não ouves. Pensas que és Onipotente? Pois nem o outro que virá depois, nem os outros que vieram antes foram tão arrogantes. Ouviste Zeus? Eu tenho estado aprisionado por séculos, mas tenho olhos para ouvir, boca para gritar. Vais cortar minha língua? Farei sinais. Vais esmagar minhas mãos? Chutarei o ar. Vais me cortar os pés? Terei pernas para teu abutre. E mesmo que não me reste nada para denunciar, ainda assim tu saberás. Porque o que fizeste está em Ti e Tu estás nele. Faz parte da tua essência e tu sempre, sempre, saberás. Bons pesadelos!

 

Helena

 

**

 

Prometeu

 

Aquela briga com os deuses – por uma fogueirinha de nada – só podia terminar desse jeito. Fiquei deprimido. Comecei a beber. Todas as noites um porre. Meu analista disse que era transferência, contra-transferência, essas bobagens todas. Mas quando comecei a ficar amarelado, sugeriu que procurasse um médico.

Cirrose, disse o doutor. Meu fígado, castigado pelo álcool, não servia nem pra patê.

E agora, do alto de minha pedra, vejo o abutre mastigar lentamente meus pés, minhas mãos e ,às vezes, até uns pedaços do crânio.

 

Marcelo



Escrito por inquieta às 03h47
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Rap 18-  16/6/2005

Ditador Marcelo –Tema: Eram nove ou dez da noite quando a eletricidade foi cortada e ficamos no escuro

1 –  Helena– m 9,4

2 –  inquieta  – m 8,6

Vento

Eram nove ou dez da noite quando a eletricidade foi cortada e ficamos no escuro. Ao redor da casa, silêncio enorme. Nem um pio de coruja. Peguei o lampião, tentei auscultar a alma. Voz que não se ouvia, de nenhum lugar.

No espelho vi a cara de meu medo. Marido dormia no sofá , nem se mexeu.

Peito apertou, gemeu de dor.

Foi quando o vento veio.

Forte, masculino, raiz de terebinto, perfume de homem, com canela. Entrou pelas narinas, percorreu o ventre.

Eu abri a porta, braços, pernas, montei no seu cavalo de cheiros, me perdi.

Quando voltei, marido se acordou.

- Você está diferente.

Respondi apenas

– Bestagem. Dorme.

No meio das pernas latejava, borboleta negra da lembrança.

Helena

**

Pássaro

Eram nove ou dez da noite quando a eletricidade foi cortada e ficamos no escuro. As portas escancaradas da sacada, a cidade lá embaixo. Eu não podia ver mais os olhos dela. Sabia que estava ali, sentada, a esperar.

Melhor assim. Mais fácil lhe dizer.

- Vou partir ainda essa noite. Nosso amor acabou, infelizmente. Sinto muito, não queria magoá-la. Sei que você vai entender. Amo Tereza, não posso mais fugir disso.

Foi exatamente ai que ouvi o grito na sacada. Voltei-me, rápido, ainda a tempo de vê-la saltar. Pairou um pouco no ar como um pássaro.

E caiu, ferida de morte.

inquieta



Escrito por inquieta às 00h51
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Rap 17-  16/6/2005

Ditador Ana –Tema: Festa

1 –  Marcelo– m 8,5

2 –  Phlavyus  – m 8,3

A festa

No andar de cima, a festa corre solta. Champanhas e negociatas, mesadas e canapés. Um ex-gordinho vomita no ventilador, espalhando meleca por toda a sala. Casais trocam-se sem cerimônia. É tucano dançando com estrela, é rosa vermelha de mãos dadas com uma labareda. No andar de cima sempre tem festa, independente do inquilino. O morador do andar de baixo, furioso, bate com o tridente em seu teto, piso do andar de cima, num pedido de silêncio.

- Vamos parar com o barulho? - continua a bater furiosamente com o tridente.

- Aí, hein, chefia? - caçoa um subordinado - E nem te convidaram?

Satanás transforma o pequeno diabo em cinzas, apenas com o olhar.

No andar de cima, a festa continua.

Marcelo

**

Festa no apê

- Você não vai acreditar onde eu fui ontem!

- ...

- A festa foi demais! Muitas gatas, uau, e como elas se vestiam... se é que aquilo podia ser chamado de vestido! Umas coxas de deusas, barrigas... que barrigas?!... e cada peitão de silicone!

- ...

- Cerveja? O tempo todo! Whisky importado, caipirinha, drinks coloridos... As mulheres estavam totalmente bêbadas!

- ...

- Não imagina o que aconteceu no final: uma morena demais de gostosa subiu no bar e fez bunda-lelê! Arriou as calças até o joelho, cara, deu para ver tudo.

- ...

- Por que eu não te chamei? Ora, você sempre diz que não vai com a cara do Latino... A festa foi no apê dele.

Phlavyus

Imagem - Beryl Cook



Escrito por inquieta às 00h33
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Rap 16 -  9/6/2005

Ditador inquieta –Tema"Faz poesia e canta verso

              Recolhe o que acha no lixo

              Tem corpo e alma dispersos

              Gente travestida de bicho"

 

                             João Baumer

1 –  Marcelino– m 9,4

2 –  Phlavyus– m 9,0

Esse tema  foi tirado de um poema do Baumer, companheiro meu,  do Marcelo e da Neysa na Ofcina do Trevisan. Foi uma safra de Raps muito boa. Na época eu mandei todas pro Bau Bau que ficou todo orgulhoso.

J Baumer faleceu mês passado. Em homenagem a ele vou postar todas. Essa imagem que ilustra o texto era uma de suas prediletas.

 

 

 

Rodoviária

Uma gusparada acertou a massa vermelha na lixeira. Fica aí, verme do caralho! Fica aí, pra tirar do lixo teu sustento! Foi bom enquanto durou, desgraçado. Acabou a sugação por dentro, me secando, rachando meu viver. A fetidez do banheiro badalou o sino do rancor, as paredes urinaram: mata, mata! Nas pernas o sangue ainda escorria. Nesse buraco de varejeira, tu nunca mais sugar ninguém. Tonelada e meia de algia suava sobrancelha acima. No ventre sem viço, ausências de corpo e alma gritaram: não me deixe! Travestida de bicho, ela chutou a lixeira. Choro e placenta implodiram na parede. Me deixa, verme nojento, cala essa boca. Saiu do banheiro ajeitando o cabelo rançoso, enquanto a rodoviária acordava outro dia.

Marcelino



Escrito por inquieta às 00h27
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Reciclagem

Os pedestres estranham que Josué se diga artista. Que escritor, que nada, respondem, você é mendigo. Só porque ele dorme na rua em caixas de papelão, cabelo e barba oleosos, roupa de terceira ou quarta mão em estado de decomposição. Puro preconceito.

Josué não liga: é artista, e disso muito se orgulha. Escritor? Quem falou em escritor?

Uns catam latas de alumínio; outros, garrafas de plástico. Josué, por sua vez, cata palavras. Uma interjeição aqui, um adjetivo acolá. De pronome possessivo ele não gosta, lembra a avareza dos que lhe negam um pão. Certa vez encontrou no lixo uma vida, e trocou pela sua, que aquela era mais bonita, escrita em itálico, letras vermelhas. E desde então recicla iteratura.

 

Phlavius

 

**

A Estréia

Ontem, pela primeira, fui puta de rua. Não queria. Não é bom pra imagem. Mas não deu, a zona em que eu estava foi fechada pela polícia. Não tenho mais 20. Tô com 45, não fui aceita nas outras zonas. Fui pra rua. Consegui um cliente, já na primeira noite. Foi bom. Pagou direito. 20,00R$. Tudo em nota de cinco. Numa delas estava escrito: "Faz poesia e canta verso". Lembrei do tempo de escola. Eu gostava de poesia. Não sei porque não gosto mais.

 

Rubens

 

**

 

Bicho de gente

- Naldo, êi, Naldo, ocê olhou daquele lado?

- O quê, mãe?

A mulher apontou para a coluna de fogo que se erguia no canto do descampado:

- Olhou?

- Não. Tá muito quente lá.

- Vai já, porcaria, aproveita enquanto é dia. Ocê já tem sete ano, num pode ficá brincano; se a gente bobeia, os ôtro campeia.

O menino olhou a multidão que disputava cada canto do lixão.

- Tá bão, eu vou. Enquanto isso, vê se a senhora e os minino pega uns urubuzim pra gente fazê, dos novim, que eu tô cansado de comê rato.

 

UK

continua



Escrito por inquieta às 00h11
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O bicho

Abriu a lata de lixo, em busca de comida. A barba farta caindo sobre o peito descarnado. Das entranhas, um grito de protesto. Urro de bicho com fome. Levantou a tampa do latão, enfiando as fuças lá dentro pra sentir o cheiro. Nada de bóia. Em vez, um verso. Um não. Vários. Um livro.

Quando a polícia recolheu o corpo - desnutrição, disse o legista - tinha uma página aberta entre as mãos:

Vi ontem um bicho,

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão.

Não era um gato.

Não era um rato.

 

O bicho, meu Deus, era um homem.

 

Marcelo

 

**

 

Encantado

Moreno desconversa, sacode a cabeleira, requebra um pouco, disfarçando embaraço. Moço bonito oferece cigarro. Ele apanha, fingindo tédio. Mas a mão é ágil, gavião perdido, carniça vomitada por pão fresco.

O outro segura seu braço, Moreno treme. Pede um Martini, toma fazendo bico, cisne sem passado.

Anda na banguela, levanta os seios murchos - dinheiro pro silicone Antonio bebeu. Olha flechado pro moço, Cinderela.

Na calçada canta o velho blues, recolhe moedas. Moço bonito espera. Moreno cospe gosma vermelha e nem liga.

Quarto alugado, retrato de Antonio doendo, moço príncipe, Cinderela.

No primeiro soco ele cai, no segundo é só lixo.

Moço bonito ri. Vai embora.

Moreno pega a guimba e aproveita o último sopro da madrugada.

 

Helena

continua



Escrito por inquieta às 00h10
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Palavras

Entraram pelo meu ouvido e pelos meus olhos, as lesmas que grudaram na mente e no coração. escavo o peito, em desespero, com as unhas feridas que sangram tentando expulsá-las. Elas me tiranizam, fazem o que querem de mim e sussurram sibilantes dentro da minha cabeça, fazendo morada nas minhas orelhas. Dizem que sou louca porque falo sozinha. Bobagem... falo com as lesmas, mas ninguém entende. Olhares de vieses, risinhos complacentes que me embrulham o estômago. Aí reviro as vísceras e dizem que vomito palavras. Mas são as lesmas. Há! Eles não sabem de nada.

 

Day

 

**

 

É tão pouco...

Altas horas, quase madrugada. Silêncio total se faz sentir.

Num repente, aquela voz, rompendo o equilíbrio.

-Meu sonhos, quem roubou? Devolvam...

E chora, tal criança abandonada à mercê da vida.

Tem a lua como namorada.Canta-lhe versos.Lança-lhe beijos...

Adormece, envolto em trapos, sentindo o vento fustigar seu corpo, alma e pensamento. Vive à sombra, não ocupa espaços.

Ofereço pão para saciar-lhe a fome e um cobertor que lhe amenize o frio.Indiferente, aceita, sem agradecer. Vejo nos olhos toda agonia que lhe toma o peito. Calada e constrangida, aceno-lhe e me vou.

Outra noite cai e do poeta insano, numa das milhares camas de cimento, brota novamente aos gritos, madrugada a dentro, seu lado sentidor, pedindo sonhos e recebendo...dores.

 

Tania

 

Imagem David LaChapelle



Escrito por inquieta às 00h09
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Rap 15 -  2/6/2005

Ditador Helena –Tema: Roupa Velha

1 –  UK– m 8,3

2 –  Paffo  – m 8,1

 

 

 

 

Questão de honra

- Trouxe a roupa?

- Serve ? – a moça arrancou um pedaço de pano puído da bolsa. – É uma cueca velha dele.

- Diacho! Cueca não serve! Cueca não é roupa! Só se usa pra mandinga de agarrar marido. Pra fazer ele enriquecer tem de ser roupa mesmo.

- Mas madame...nunca soube disso...

- Pois não é. Pense comigo: se não é visível pras pessoas da sociedade, não pode ser roupa; sub-roupa até pode; mas roupa, não. Se quiser eu posso fazer o trabalho, mas não garanto sucesso.

- Faz assim mesmo. Não vou poder voltar aqui tão cedo.

- Eu faço. Mas tem uma coisa: como minha reputação vai estar em jogo, o preço é dobrado.

 

UK

 

continua



Escrito por inquieta às 23h56
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Para amá-la e protegê-la

Seu novo traje espacial é bonito, Conrad, observou o velho modelo SARA, dobrado cuidadosamento na caixa de descarte. Espero que o proteja bem, como eu fazia.

Conrad falou no comunicador: "venha buscá-lo".Sempre fui forte e rápida, lembrou. Em Titan, meu exoesqueleto tornou-o num super-homem aos colonos, pois há poucos trajes como eu, vai mesmo me descartar? A porta anunciou uma garota pequena, de olhos assustados, cujo traje espacial obsoleto horrorizou SARA. Vedamentos emendados, material ordinário... quem é ela?

- Sua nova dona – esclareceu Conrad – dos níveis pobres da colônia.

Sem cerimônia, a menina vestiu SARA, que se lhe ajustou ao tamanho.

- Obrigada – sorriu a garota, antes de se retirar.

- Obrigada – ecoou o traje.

 

Paffo

 Imagem - Chagall



Escrito por inquieta às 23h52
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