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RAPIDINHAS DA OE
 

Rap 26 -  17/8/2005

Ditador Tania –Tema: Descoberta

1 -  Rubens– m 9,8

2 -  Marcelo– m  9,1

 

 

A busca

 

Era preciso descobrir quem seria daqui pra frente. Pensou garça, pato, corvo, aves todas, não, voar não lhe convinha, alto demais. Pensou vermes, lombrigas, minhocas, não, toscos demais, sem começo nem fim. Pensou árvores, carvalhos, tucaneiras, inhoçaras, jacarandás, não, fixas demais, verdes. Pensou pedras, diamantes, ametistas, metais, ouro, cobre, zinco, não frios demais, duros, estranhos. Pensou carros, computadores, aviões, foguetes, não, frágeis demais, fáceis de estragar e morrer.

Vasculhando até descobrir o que seria, ele pensou homem, sim, superior, intenso, consciência. Resolveu ser homem. Arrependeu-se no quarto dia. Resolveu ser um mourão de cerca enterrado no brejo. Não é firme, porém é mais consistente que ser homem. Está feliz, apesar da umidade nos pés.

 

Rubens

 

**

 

A  descoberta

 

Sinval abriu o armário em busca de seu sobretudo de lã inglesa. Surpreendeu-se ao descobrir lá dentro um esqueleto. Tinha a estatura exata de Sinval, que reconheceu nos ossos seus próprios traços. A cabeça pequena de fronte larga, o queixo breve e dois ou três dentes de ouro. Até a fratura sofrida quando criança estava lá, na ulna esquerda. Encararam-se.

O esqueleto estendeu o braço descarnado, desviando Sinval de seu caminho, e saiu do armário requebrando os ossos num rebolado provocante.

 

Marcelo

 

Imagem - Miró



Escrito por inquieta às 19h23
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Rap 25 -  10/8/2005

Ditador Marcelino –Tema: É preciso estar seco por dentro para entender a água.

1 -  Helena – m 9,4

2 -  Rubens – m  9,1

 

 

Boto

Ele vem no suspiro da noite, entra devagar. Deita no meu corpo, pesa sobre mim, corta a respiração.Invade tudo com seu sexo de água. Lago que me afoga e destroça os pardais molhados.

Lá fora canta o vento e tudo faz sentido.

Deserto que secava a alma na beira da lua.

Ele vem com seu canto perdido e umedeço de amor e floresço e renasço. Outra vez sei que é tudo mentira. Mas a marca da água borda a cama de renda. Boto rendeiro. Boto redentor.

Sai com a luz da manhã. Depois dele sou duas.

Há quem diga que fico. Há quem diga que fui.

 

Helena

 

**

 

A espera

Boca aberta. Olhos para o céu. E não chove nunca. A sede esfregando-se por dentro dele. Tenta saliva, sereno, orvalho. Inútil. Preso em um poço seco. Toda a salvação está lá fora. Condensada nas nuvens. Pensa ouvir trovões. É tempestade, muita água para beber. Recebe pingos esparsos. Mais uma vez a tempestade passa ao largo. Entende a natureza esquiva da água.

Amanhã outro dia.

Logo verão. Grandes chuvas entrarão por sua garganta. Basta manter-se firme: boca aberta, olhos para o céu, pois nenhuma estiagem será eterna.

 

Rubens

Imagem - Chagall



Escrito por inquieta às 19h17
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Rap 24 -  28/7/2005

Ditador Marcelo –Tema: Estaremos enviando

1 -  Marta – m 9,1

2 -  Paffo– m  9,0

 

 

Hora real

Célia deitou a cadela de barriga para cima, pediu a tesoura e começou a abrir o ventre. Puxou o conteúdo para fora e o examinou. Depois quis  devolver, mas não conseguia, as coisas não cabiam mais. Foi então que ela se voltou para mim.

- Mandem um médico!

- Estamos enviando - respondi. E fui ajudá-la a consertar seu bicho de pelúcia.

 

Marta

 

**

 

Pacote Derradeiro

– Estou enviando agora – respondeu o oficial ao telefone.

Entregou o pacote ao subordinado, que saiu correndo atrás da ordem. As bombas já iluminavam o horizonte como uma alvorada maldita com sabor de ocaso, enquanto as crianças e os velhos empilhavam sacos de areia nas ruas, num esforço inútil e belo de tentar deter o destino fardado com as cores dos inimigos.

A guarda estava firme, indefectível, nenhum músculo se movia para deter as lágrimas da humilhação.

O soldado passou pelos cachorros mortos. Pelas salas cheias de registros de conquistas desfeitas. Foi-lhe dada a chance de ver pela primeira e última vez o rosto do homem que iniciara aquela guerra.

E entregar-lhe a arma de seu suicídio.

 

Paffo

Imagem - Deborah Thompson



Escrito por inquieta às 19h12
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Rap 23 -  28/7/2005

Ditador Ana –Tema: Casa

1 -  Helena – m 9,7

2 -  Day – m  9,5

 

 

 

Casa de Pano

 

Bordei paredes com linha grossa para o calor guardado.Entrelacei cordas vermelhas formando o telhado que barraria a chuva indiferente. Enfeitei  janelas com sutache dourado onde boiava um som amarelo. Apliquei flores de seda e preenchi de beleza o espaço branco. Delimitei móveis em linhas claras, cortei fios, comandei tesouras, perdi agulhas finas. Fechei a porta com teia delicada de crochê.

Então me agasalhei na casa escura e menti para todos que era bom.

 

Helena

 

**

 

No tempo das carambolas...

 

As árvores eram altas e as pernas do meu pai tão longas que chegavam em Dublin. Um quintal e umas ameixinhas amargas. Mas eu principiava a achar tudo bom.

Casa branca, varandinha minúscula, um mistério: para que porta que nunca se abre?

A tartaruga atacava o dedão caso ele estivesse vermelho-cor-de-tomate.

Era doidinha por tomate.

Bomba-Relógio, o galo, lavava os pés-de-galinha caso quisesse entrar, pois a casa tinha cheiro de mofo e limpeza. Um frio de séculos e lápis de colorir.

Eu principiava um sorriso meio fosco, meio tosco, um meio sorriso que nunca desabrocha do tempo que nunca era e nunca chegou.

Por que  cisma em ficar na minha lembrança se nunca existiu?

 

Day



Escrito por inquieta às 01h00
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Rap 22 -  21/7/2005

Ditador Helena –Tema: Caçador maldito

1 -  Phlavyus - m 9,1

2 -  Rubens  - m 9,0

 

 

 

Caçador Noturno

 

O homem vagava solitário pelas ruas escuras do Centro quando o sino badalou as sete vezes. Numa marcha obsessiva, evitava pisar nas linhas enquanto a sombra crescia e diminuía, à frente ou atrás, conforme a posição da luz. Não sabia onde ou como, mas tinha certeza: saciaria seus instintos de macho ainda àquela noite.

"Procurando diversão?" foi abordado por aquele estereótipo de  prostituta.

Agradeceu, mas não, precisava de uma dose de realidade. E assim como  não a viu chegar, não soube dizer para onde foi.

Não tardou duas quadras para achar o que procurava. O letreiro dizia: Vidraçaria. Na vitrine, reflexos baços de si próprio  multiplicados na dezena de espelhos. E ali mesmo, de pé, teve um  orgasmo.

 

Phlavyus

 

**

 

O encontro

 

Ônibus lotado. Maria em pé no corredor, sendo espremida pelos que passam. De repente um tipo forte, peludo, pára atrás dela. Sussura-lhe no ouvido. Táis afim de ser caça hoje? Sente a arma. Maria treme. Muito calor por dentro. O sacolejar do ônibus junta mais os corpos. Deusdocéu o que é isso? Olha de soslaio para o homem. Bem seu tipo. E as correntes no pescoço então? Nos dedos uns anéis de ouro. Fala baixinho, que ninguém ouça, moça séria antes de tudo. Caçador maldito, me faz sua caça. Descem. Num terreno baldio, Maria sente o gosto de terra e esperma. Agradece aos céus. Não é sempre que a vida lhe dá esta sorte

 

Rubens

Imagem - Chagall



Escrito por inquieta às 00h55
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Rap 21 -  14/7/2005

Ditador UK –Tema: Perfume

1 -  Marcelo - m 7,1

1 -  Marta  - m 7,1

2  - Eros - 7,0

 

 

 

Confissão

 

... e aí ela me disse que era pra esperar só mais um tiquinho, só o tempo de botar um perfuminho no pescoço, sabe como é, doutor, mulher gosta dessas coisas, uma vez eu trouxe um vidrinho de perfume estrangeiro lá do Paraguai pra fazer um agradozinho pra ela, e aí ela começou a demorar muito pra botar o tal  de cheiro no pescoço, o baile já devia estar começando, e então eu resolvi ir  atrás, sabe como é, mulher se a gente não apressa não dá jeito, e quando entrei  no quarto vi a cueca do safado em cima da cama e aí o sangue subiu, doutor, e  então foi um golpe só naquele pescocinho perfumado e aí então ...

 

Marcelo

 

continua



Escrito por inquieta às 00h23
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Fugaz Ciclo Canis Odorífico

 

Perfume de parto. De mamas febris. O calor de quem dorme aninhado: exalam leite e cu.

Mais tarde, os aromas do capinzal, húmus expostos, manhãs aspergidas de baunilha e Coca-cola. Um jasmim ondula e contamina. Pequeninos de uréia. Lambidas de fezes.

Odores nascem com os dentes. Odor de ossos.

Os vapores da ração de sabão. Saliva. Bafo.

Tártaros proliferam nas arcadas, um berne infecta o dorso.

Então, assim, sem demora, pinga o cio.

Vara capim, húmus, cu e urina. Pinga porra, pinga vagina.

E o cheiro de ventre lactante retorna, perfume de nascituro.

Pequeninos de uréia.

 

Marta

 

**

Outros Odores

 

Na floresta os cheiros são odores. Perfumes sem marcas.

As plantas, a terra, as árvores e até a fagulha de sol que rompe a escuridão tem sua fragrância distinta. Há cheiros bons, tipo cheiro de mãe e há os cheiros de perseguição.

Sei que não adianta correr desse cheiro, de cheiro não se escapa. O cheiro entra em contato com a alma e lá desperta sentidos e sensações mesmo nunca sentidas.

Tenho medos de alguns cheiros. De outros tantos corro. Corro sem nem mesmo olhar para trás.

Se você duvida é porque nunca sentiu cheiro de ganbá ou de amar.

Eros

Imagem - Cezanne



Escrito por inquieta às 00h19
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