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RAPIDINHAS DA OE
 

Rap 41 -  2/12/2005

Ditador - Phlavyus–Tema: Maldita dor de dentes.

1 -  Marcelino– m 9,5

2 -  Leila– m  9,4

 

 

Um Tiro

Um sereno delirava o rosto branco. O Bispo caminhava cedo, em horários irregulares. Antes das cinco, Jair incorporava o mendigo à frente da mitra. Quem dorme com essa dor? Sentia mastigarem sua língua, goela, até a orelha esquerda estava carcomida pela dor.

Nunca matei nesse estado. Só preciso de um tiro.

Preciso de remédio, senão fico louco.

A primeira encomenda, e logo o Bispo, um homem perigoso?

No portão, ele socava as cáries da tortura.

Por que chora, pobre homem? Ouviu enquanto arrancava fiapos da japona. As mãos do clérigo no ombro.

Não chore, Deus há de perdoar os teus pecados.

Me salve do inferno, Dom Carmelo.

A bala entrou queixo acima. Explodiu a cárie amaldiçoada.

 

Marcelino

 

**

Dores

Imprime o rosto contra o travesseiro, sente a fronha já molhada. Tinha chorado tanto. Até bendizia aquela dor de dente. Desviava da outra dor, a verdadeira.

Ergue a cabeça e estuda, no varal, pedaços dele, ali umas mãos fortes, do outro lado os pés e logo o tronco seguro, mesmo sem a cabeça. As mãos ainda respingavam. Nem sabia como tinha tido a idéia de desmembrá-lo assim, um instinto.

 

Leila

Imagem - Maitland



Escrito por inquieta às 15h58
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Rap 40 -  23/11/2005

Ditador - Marta–Tema: Oito minutos embaixo d’água.

1 -  Tania– m 9,7

2 -  Helena – m  9,6

 

 

Últimos instantes neste mar

Que ondas são essas, tão estranhas? Empurram-me e, quando vou, algo me impede.Obriga-me a voltar. Sufoco. O som da tua voz não traz alento. Diverso de sempre, entrecortado por soluços, geme. Sinto medo.

Serei eu a provocar-te tanta dor? "Oito minutos..."

O que procuras, assim, tão apressada?

"Sete... seis... Deus, ajude!" Meu corpo bêbado, não coordena... Cheiro forte!Entonteço.

"Cinco... quatro... três minutos. Tudo ou nada".

Um brilho fere meus olhos.De onde veio? Alguém me puxa, com força e um rio vermelho cerca nossos corpos nus.

"Dois... um". Desfaleces junto a mim.

Choro.

A faca, ao lado de meu pequeno corpo reflete tua coragem de mulher e mãe.

Com teu amor, trouxeste-me à luz.

Tania

**

Oito minutos lá embaixo

A cabeça molhada apareceu na orla do mar espalhando água

- Viu, mãe? anotou o tempo?

- Humhum.... legal - respondeu, olhos lassos para o namorado

- Vou de novo. Conta aí!...

- Pode deixar - mentiu, boca de promessas em direção ao vento

- Ele não está demorando muito? - preocupou-se o rapaz, consultando o relógio.

- Nada... é sempre assim...

A Mãe olho para as unhas com desgosto " esmalte vagabundo... descascando na ponta"

No fundo do mar, o menino passeia entre as algas flutuantes, rodopia com peixes coloridos.

As guelras estão quase prontas.

Helena

Imagem – Chagall detalhe



Escrito por inquieta às 15h56
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Rap 39 -  16/11/2005

Ditador - Rubens–Tema: Ali, do outro lado.

1 -  Marcelo– m 9,3

2 -  Helena – m  9,2

 

 

    Cavalaria

      Ali, do outro lado do terreno, diviso as armaduras negras do exército inimigo. Avançamos, lanças em riste. Num movimento coordenado, eles também marcham em nossa direção.  Então, o combate tem início. Desvio de um golpe de espada, mas meu companheiro ao lado não tem a mesma sorte. Consigo vingá-lo numa estocada de lança. Ofegante, vejo um poderoso cavalo negro pisotear nosso sacerdote, que encomendava as almas aos céus. Pobre bispo. Um arqueiro, do alto de uma torre, faz justiça ao religioso, flechando o animal nas ancas. É quando a vejo. A rainha inimiga. Porém, na ânsia de preservá-la, os estrategistas fragilizaram seu soberano. Protegido pelo arqueiro, me aproximo e capturo o rei negro. Fim de jogo.

      Xeque-mate.

 

Marcelo

 

**

 

Telegrama

            Rosto fechado tarde que morria pt ao seu lado também eu

morria vg olhando o sol pt. palavra trancada cadeado amargo pt. sua mão na

cerca vg morena  e uma brisa isto eu sabia pt não via seus olhos pt

Para que int. Poços de negrume sem repostas pt No estômago borboletas vg

pedra no coração pt O sol sumiu e estrelas caíram pt Telegrafei uma

última palavra pt

           Mas você estava longe.

 

Helena



Escrito por inquieta às 15h49
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Rap 38 -  9/11/2005

Ditador - Inquieta–Tema: Encontros ao cair da tarde

1 -  UK– m 9,5

2 -  Phla – m  9,0

 

 

Silêncio!

O amor passou por sua vida como um caracol, lento e comedido. E o que era brilhante rastro tornou-se não mais que pálida lembrança na superfície do coração solitário.

Ainda assim resistia.

Há mais de meio século recarregava-se naqueles encontros de fim de tarde.

A praça cheia, o mesmo banco: um formigueiro humano.

Alimentava-se do amor salpicado em meio à fria natureza urbana, os olhares trocados, gente jovem se procurando nos interstícios do tempo.

Um dia, suas pernas fraquejaram. Não conseguia andar. Olhava a velha praça da janela, sem ter como alcançá-la.

Seu coração parou.

 

UK

 

**

 

Crítica

Foi ao cair de uma tarde, o sol se pondo de um lado enquanto as primeiras estrelas já nasciam na escuridão a leste, que encontrei a mulher que mudou definitivamente a minha vida. Uns diriam "uma guinada de 360 graus", mas digo que não, isso é como voltar para o mesmo lugar. Ela não me elogiou, não disse palavras honrosas ou algo que me engrandecesse o ego. Pegou meus escritos e disse apenas a verdade:

- Que bosta! Você pode fazer melhor!

E eu entendi o que era a crítica

 

Phlavyus

Imagem - Levitan



Escrito por inquieta às 15h48
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Rap 37 -  3/11/2005

Ditador - Tania–Tema: Faminto

1 -  Marcelino– m 10

2 -  Marcelo– m  9,6

 

 

Autofagia


Há doze dias não como nada. Até então as aranhas marinhas me nutriram. Nesta ilha-pedra, pássaros já não pousam, o último devorei até mesmo as penas. Estou faminto.

Hoje decidi: vou comer uma das mãos. Mas qual? A direita está mais forte, mais gorda. A esquerda está feia, quase-azul. Machuquei-a durante o naufrágio. Uso-a pouco. Mas não tenho
coragem, pode me fazer mal. Vou comer a direita. Com um dedo por dia, posso agüentar um bom tempo. O resgate deve estar a caminho.

Ontem comi o último dedo. O maior. O resto da mão deve dar para uns cinco dias.

Vou secá-la ao sol. Ainda tenho esperança de resgate.

Minha mão esquerda está com ótima aparência.

 

Marcelino

 

**

 

Incompatibilidade

     Janelas fechadas. Lá fora, o sol escaldante. Cá dentro, a flauta transversa sente dó do violino que se declara. Te amo, solfeja o esperançoso gorduchinho, allegro ma non troppo. A flauta, elegante por si mesma, quer saber da afinação do violino. Mi. Se disser que sou fá, minto. A delgada dama elogia a honestidade do pretendente, mas alega incompatibilidade, saindo em fuga pela ré da câmara.

 Com o canto dos olhos, o violino percebe a amada de agrados com o oboé.

 

Marcelo

Imagem - Warhol



Escrito por inquieta às 15h46
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Rap 36 -  26/10/2005

Ditador - Marcelino–Tema: A própria mãe

1 -  Helena– m 9,3

2 -  Marcelo– m  8,9

 

 

Política

Na campina, o galo cantou.

Cansado, o presidente da mesa repetiu:

O senhor não é obrigado a dizer a verdade. É seu direito constitucional mentir para proteger-se, mas, como cristão, responda sinceramente: Repito o  transcrito:  " que a senhora declara não conhecer o conteúdo da mala com dólares. Que afirma ter confiado no deputado porque é sua mãe, embora há anos estivessem afastados."

Da oposição vinha o burburinho:"exame de DNA..."

O acusado olhou os sapatos acalcanhados dela - o vestido  modesto, mãos calejadas no colo. " Faça passando manteiga no pão.... sineta da escola...  o cheiro de maresia e peixe podre do cais"

Respondeu frio:

- Não conheço esta mulher.

Ao longe o galo cantou. Pela terceira vez. 

Helena 

** 

À beira da estrada

    Droga de chuva. Vou acabar chegando atrasado. Em todo caso, é melhor parar em alguma pousada. Não consigo enxergar a estrada além do pára-brisa. Só água.

...

Ali, adiante, posso ver um luminoso piscando em falsete. Pelo menos uma cama deve ter. Com sorte, um café quente.

...

Meus sapatos estão cobertos de barro. Droga de chuva. A reunião já era. Pelo menos deve haver uma cama nessa espelunca.

...

É estranho. O luminoso. Tenho impressão que conheço este lugar.

...

 Hotel Bates. Onde foi que já vi esse nome? 

Marcelo



Escrito por inquieta às 15h37
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