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Rap 2 - 20/1/2006
Ditador – Tânia –Tema: Fulminante
Leila
Helena
Edna
Loira, mas loira de cabelo pixaim, só crescia para os lados. De nada adiantava essa cor herdada da mãe. Feia. Era o que o espelho lhe mostrava. E os olhares desinteressados que só passavam sobre os
seus ombros?
Além. Sempre além.
Não sabia o que a incomodava mais, os que mentiam para 'consolá-la' ou os que escancaravam o desprezo, como a Cláudia que já passa pela porta da secretaria com os dentes arreganhados, distribuindo bom dia. Cabelos pretos, lisos, cheia de grana. Do marido, claro. O trabalho na escola era só para constar. Mulher moderna. Vinte diários para colocar em dia, apostava que o da Cláudia estava cheio de erros.
- Chamem uma ambulância, Edna teve um ataque.
Leila
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Fulminante
Eu tranquei as portas, fechei as janelas, esqueci o telefone. Fiz cercas no coração, joguei fora a chave, assassinei o carteiro, rezei uma novena e acendi vela de sete dias. Desconectei a Internet, passei cola nas cartas, coloquei venda nos olhos e algodão nos ouvidos. Pra esquecer o teu nome, maldizer tua boca. Comprei uma venda preta, me cobri de luto, eu fugi praBangu e me aprisionei Mas de nada valeu.
- Alfredo?
Helena
Escrito por inquieta às 21h28
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Rap 1 - 13/1/2006
Ditador - Marcelino–Tema: Abordagem
1 - Leila– m 8.66
2 - Rubens– m 8,58
Manhã
Parou no sinal e viu, ao lado, a mulher. Não olhava para nada. Esperava que o primeiro carro se movesse e aí se moveria também, abandonaria aquele estado. Tudo ao redor inexistia, naquele segundo conhecia tanto dela. Inalou o ar numa tentativa idiota de alcançar seu cheiro. Como? Tantos vidros separando os dois e a poluição, as vidas, aqueles moleques sujos sacudindo desespero em cambalhotas ou gestos de estudada humildade. E em casa Teresa servia o café sempre com as mesmas palavras, parecia um disco de auto-ajuda. Uma baboseira sobre ser feliz, cega para o mundo. Cega, surda e feliz, mas não muda. Num segundo, como se tivesse sentido, a mulher se virou e o sinal mudou de cor.
Leila
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A última abordagem
Pedaço escuro de rua. Eu olhei para o poste e vi a lâmpada quebrada. Ia passar ligeiro, meio perigoso aquilo lá. No meio do pedaço escuro, a mão abordou meu peito, oi gostoso, chegou o teu dia, estarreci, vem cá vem, não foge da inevitável, quis correr, dizer comigo não violão, de repente a outra mão por trás, vem cá vem, não foge que é pior, puxou minha camisa, arrebentou os botões, fiz menção de pegá-los no chão, não sei por quê.
Ajoelha aí e reza amoreco, tens trinta segundos pra convencer Deus a te salvar. A julgar pelo calor, não fui muito convincente.
Rubens
Escrito por inquieta às 21h17
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Rap 43 - 2/12/2005
Ditador – Marcelo –Tema: Ho ho ho.
1 - Mairy– m 8,5
2 - Leila– m 8,3
Espírito de natal
Desde criança, a risada do Papai Noel me assusta. No dia do Natal, há trinta anos atrás, quando minha família estava reunida, um homem entrou pela porta vestido de Papai Noel e os fuzilou. Todos. Escapei porque me escondi dentro da máquina de lavar. É só ouvir o maldito HoHoHo para sentir um arrepio gelado e vontade de vomitar. Neste ano terei de comemorar o Natal, minha filha insistiu tanto que terminaram meus argumentos contra. Comprei uma ceia daquelas vendidas congeladas, um pinheiro e alguns presentes para ela, além do cd com músicas típicas dessa época. Ah, comprei , também, uma calibre 12 caso o desgraçado do Papai Noel ouse entrar pela nossa chaminé!
Mairy
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O bife
Natal é sempre a mesma merda. Teve um natal que prestou, foi quando abocanhei aquele bife do pai. Antes, isso era regalia dele, para nós, só a gordura que sobrava e mamãe misturava numas batatinhas. Ainda lembro dele se preparando para comer e do homem na porta. Disparou os tiros sem dizer bom dia, o pai mal teve tempo de se assustar. Eu só tinha uma idéia na cabeça, o bife. Comi num piscar de olhos. Ainda vi mamãe sair pelo portão e caminhar, sem olhar para trás. Nunca mais voltou.
Leila
Escrito por inquieta às 21h06
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Rap 42 - 15/12/2005
Ditador - Helena–Tema: Escolha errada.
1 - Marcelo– m 9,0
2 - Leila– m 8,6
A escolha
Meu pai costumava dizer que a vida é feita de escolhas, filho.
Lembrei disso olhando a foto do homem que fui contratado para matar. Ali estão os mesmos olhos assustados que agora se voltam pra mim. Os dois pares de olhos. O filho-da-puta que me contratou só não disse que eram gêmeos. Finalmente entendo o que meu velho queria dizer.
Marcelo
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Profano
Sofia estranhava aquela consistência. Meteu os dedos na massa e levou-os à boca só para constatar que o gosto também fugia ao comum. O comum era não ter gosto. Entretanto seguira à risca os ensinamentos da mãe.
Padre Rafael apareceu na porta no momento em que ela lambia os dedos. De bermudão. Sofia enrubesceu. 'Algo errado?' Perguntou ele se aproximando. Sem esperar resposta, tomou a mão da moça, enfiou-a de novo na massa, lambeu cada um dos seus dedinhos e sentiu o estremecimento do seu corpo. 'Não se preocupe, filha, estas hóstias ainda não estavam consagradas.
Leila
Escrito por inquieta às 21h05
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